domingo, 18 de outubro de 2015

Obrigado, Uakti!

O Uakti sempre foi meu grupo musical de estimação. Desde que o conheci, formalmente, em 1987, já com 9 anos de estrada, em um show no Teatro Sérgio Cardoso, os sons de madeira, terra, vidro, água e vento do conjunto mineiro passaram a fazer parte da minha memória sonora. Digo formalmente, porque eu já os conhecia da belíssima faixa Ânima, de Milton Nascimento. 

Desde que descubri que o som por trás do Milton era daquele conjunto que tinha um som tão belo e uma mise-en-scène tão bem cuidada, o Uakti passou a ser, naqueles tempos antes da internet, um daqueles segredos guardados à vista de todos que eu sempre fiz questão de compartilhar. Porque segredo bom é só aquele que a gente espalha pelo mundo. O Uakti era essa música que eu sempre quis levar ao máximo de pessoas que pudesse. Sempre me deu enorme prazer ouvir alguém comentar na sala de exibição de um filme, um elogio à bela música dos "meus amigos" mineiros. E me dava mais prazer contar para todos: É o Uakti, um grupo meio mágico lá de Minas, que tira música da madeira e do plástico, vidro e bombinhas de limpar lente, cabaças e toca-discos quebrados. A última vez pela qual passei por essa experiência foi com a trilha do filme Território do Brincar. o Uakti era mesmo a escolha perfeita. Nada melhor para retratar a infância do que uma música sem tempo e sem lugar. De qualquer tempo e de todos os lugares.



Nesses 28 anos, foram muitos os shows de que me lembro, dezenas, talvez. E milhares de vezes em que a música do grupo me acompanhou ao trabalho ou para casa em meus fones de ouvido. Em 2013, no show com canções dos Beatles, o grupo apresentou seus familiares. Outra geração de músicos, uma família expandida que abria a possibilidade de que o Uakti, como a lenda indígena que dá nome ao grupo, tivesse se tornado uma planta com muitos ramos, que duraria para sempre.

E por isso, por parecer que sempre estaria ali, por ser um ponto de retorno estável e permanente, a perda foi mais dura. No dia 15 de outubro de 2015, em um anúncio simples, Marco Antônio Guimarães avisou que o grupo que embalou minha vida nos últimos 28 anos (e que já vinha embalando a vida de muita gente por 37 anos) estava chegando ao fim. Não cabe aqui tentar entender as razões disso. Eles as têm e elas não me importam. 

Permanecem os ecos de sons de trilobitas e planetários, pans, flautas, marimbas de madeira e vidro e o choro riso da saudade. O trabalho chega ao fim, mas a música vai durar pra sempre.

Obrigado, Uakti!





terça-feira, 13 de outubro de 2015

O peixe e eu

Uma vez meu pai estava pescando no lago da fazenda Vitória, pouco antes dele morrer (devia ser início dos anos 50) e estava de pé no barco. O lago não era muito fundo nem ele estava muito longe da margem, mas o velho Chico, mesmo sendo tão vivido, e ter passado boa parte da vida perto do mato, era um stronzzo pra nadar, nunca tinha aprendido. Não sei direito o que aconteceu, só sei que ele se desequilibrou e caiu na água. Vendo o velho se debater desesperado, reagi automático e pulei na água. De roupa e tudo. Meu pai sempre foi mais pesado e naquela idade não dava pra dizer que estava numa boa forma. Por um instinto natural, senti que não seria bom tentar agarrá-lo, assim contornei ele e empurrei em direção a margem. Um empurrão foi suficiente para ele sentir a nos pés o chão de lodo, e ainda desequilibrado foi recobrando a calma aos poucos até sentir a base firme, parar e ficar ali, ofegando. Percebi que eu estava assustado. Cáspita, o velho tinha quase morrido, ai meu Deus! Ali, nadando no lago da fazenda, vendo meu pai se recuperar, lembrei de outro susto, na única vez em que pesquei de pé, talvez meu maior susto da vida.

Foi no rio Paraná, perto de Urubupungá. Já estava ali uma boa parte do dia. E tinha pegado alguns peixes, mas não vinha sendo um dia particularmente bom. Era tarde e eu estava sozinho, o sol começava a baixar e o rio estava bonito, aquele cheiro de mato bom e o som dos pássaros. Lembro de tudo. Tinha ficado ali porque era uma curva do rio, a água ficava mais tranquila, o barco não descia e os peixes podiam nadar e buscar comida com mais calma. Estava ali sentado fazia mais ou menos uma hora, então levantei para esticar as pernas. A isca que estava no meu anzol esse tempo todo imóvel. Era um peixe pequeno pra atrair quem sabe um grande, já que tinha pegado poucos peixes... Na hora que levantei, vi a boia se mexer muito muito rápido e senti um tranco no braço que quase me derrubou. Tomei um susto danado, quase deixei cair a vara. Abri os olhos e tentei ver debaixo das águas que não estavam muito claras. Vi uma sombra dobrando pra esquerda e se afastando. Dobrei as pernas pra ficar com a base forte, firme e esperei o segundo tranco. Dessa vez eu estava preparado e o tranco foi só o início de uma puxada forte. Fiz força com o braço e, quanto mais eu fincava o pé no chão, mais o peixe arrastava o barco e tudo que tinha dentro. Naquele tempo não pescava com molinete, ou o raio que parta dessas coisas modernas de hoje. Era uma linha e uma vara e só. E não tinha como dar linha ou diminuir, não tinha o que fazer além de agachar cada vez mais e fincar o pé no chão.

Nunca fiz tanta força com a barriga, acho que foi por causa desse dia que fiquei com a barriga dura. O bicho foi puxando e cada vez ia aumentando a velocidade, o barco se virou rio abaixo e foi embora. E eu é que não ia largar a vara, perder a isca, ainda mais com um peixe tão forte preso nela. Eu falei, porca miséria, eu pego esse vagabundo nem que eu tenha que fazer um buraco no chão desse barco. Só que o miserável, levando o barco rio abaixo, pôs o barco numa corredeira e o rio estava cheio. Em dias vazios eu já tinha visto gente descer o rio, mas nunca cheio daquele jeito. Era pra dar medo, mas eu é que não ia largar mesmo... Sobe onda, desce onda, desvia de pedra e tronco e árvore, e a corda o tempo inteiro esticada. Eu nunca tinha visto nada igual, o peixe devia ser um monstro.

Desviei de uma árvore baixa e então vi. Uma cachoeira!

 Devia ter uns 5 metros (depois calculei) mas eu não via. Só via o rio acabando numa linha de água que caia, sem saber onde estava o fundo. Meu coração veio na boca, segurei a respiração e disse, é agora, seja o que Deus quiser. Segurei bem forte na vara, dobrei mais um pouco os joelhos e fechei os olhos... Não sei explicar o que aconteceu. Eu senti que estava caindo e que não tinha nada em baixo de mim. Isso durou sei lá quanto tempo, deve ter sido pouco, mas pareceu muito, e então senti de novo o barco, tropiquei. Bati o joelho no banco e me protegi com uma das mãos. Mesmo assim não larguei a vara! Eu estava dentro do barco e ainda estava com ela na mão!

Ah, agora aquele peixe ia ver!

O rio ficava calmo depois da queda. Não era possível, o peixe tinha que estar cansado, meu Deus! Mas a corda ainda estava esticada e o barco sendo puxado! Eu estava no limite, ia desistir... mas aí, a corda afrouxou. Eu aliviei a força nas pernas e falei em meu pensamento: agora vai! Me preparei para puxar. Peguei na corda. Tudo parecia calmo...

Mas era só um truque! De repente, senti outro tranco... e a corda arrebentou! Quase chorei de tristeza. Tanto esforço pra nada! Não peguei o diabo e tinha perdido tudo que tinha pescado no dia.

Dei uma olhada em volta pra ver como estava o barco. Estava tudo bem, tinha um pouco de água no chão, vi que tinha mesmo perdido o balde com a pesca. Mas encontrei preso embaixo do banco a caixa com as iscas, que tinha uma linha, uma boia e um anzol reserva.

Resolvi que, como já estava ali mesmo, porque não tentar mais um pouco. Troquei a linha da vara. Prendi a boia e o anzol e virei de lado pra pegar as iscas. Só que sem querer deixei o anzol cair na água. Quando me virei de volta, percebi a linha pra fora do barco e fui olhar por cima da borda... Vocês não vão acreditar no que eu vi!

Ali estava o peixe, mexia-se um pouco... e estava preso no anzol!

Apressei-me a puxar, fiz uma força enorme, apesar de o peixe não oferecer resistência alguma. Parecia cansado. Mas era pesado! Era o peixe mais pesado que já tinha pegado na vida! Fiquei olhando um tempo, cáspita, como era possível uma coisa dessas. O peixe nem se debateu. Fora dágua por alguns segundos logo ia morrer, mas ainda estava vivo.

Olhei no seu olho e me vi.

Na verdade, acho que eu não tinha muita escolha...

Obviamente, o devolvi a o rio...