segunda-feira, 2 de junho de 2014

A mentira da verdade

Há algum tempo conheci, no Boca do Céu, Mafane, uma moça com um estilo muito bonito e interessante de contar histórias. Como uma história puxa outra, acabei descobrindo que ela tem um belo site (em francês) www.mafane.com onde é possível conhecer um pouco do trabalho dela e algumas histórias que ela coletou. Uma me tocou muito e a reproduzo aqui em tradução livre:
Um homem jovem e idealista ouviu dizer uma vez que a verdade é uma mulher jovem, bela e desejável. Tão desejável que o homem suficientemente feliz em conseguir encontrá-la se sentiria completo para sempre. Desde esse instante, o jovem sentiu seu coração se inflar de desejo pela bela desconhecida e jurou consagrar sua vida a encontrá-la.
Ele a procurou primeiro nos livros de sabedoria e de filosofia, mas descobria sem parar novos livros que desmentiam, com base em provas, as verdades publicadas antes deles. Ele a procurou nas religiões, porque toda religião pretendia possuir a verdade última; mas essa verdade era ardentemente contestada pelas outras religiões.
Então ele a procurou no vasto mundo. Cada vez que chegava a uma cidade ou vilarejo, ele perguntava: "Vocês conhecem a verdade? Ela vive aqui?" E cada vez alguém respondia: "A verdade? Sim, ela passou por aqui há muito tempo. Mas ela partiu e ninguém sabe pra onde ela se foi."
Tendo visitado cada cidade de cada país e tendo gasto mais da metade da sua vida, nosso caçador da verdade abandonou os homens e se dirigiu à natureza. Ele interrogou longamente as árvores, as montanhas, as florestas, os oceanos, e igualmente os pássaros, os peixes, os mamíferos e até os insetos. Ele perguntava: "Vocês conhecem a verdade? Ela vive aqui?" E árvores, montanhas, florestas, oceanos, pássaros, peixes, mamíferos e insetos respondiam invariavelmente em suas próprias línguas: "A verdade? Sim, nós a vimos passar por aqui, há bastante tempo, mas ela não se deixou ficar e quem sabe onde ela pode estar agora?"
O jovem havia se tornado um homem velho e ainda procurava a verdade. Depois de ter esgotado os recursos da sabedoria, dos homens e da terra, ele chegou a um grande deserto de areias brancas. E interrogou o deserto: "Você sabe onde está a verdade?" E o deserto respondeu: "Ela está aqui. Porque eu sou a verdade." Mas de tanto buscar a verdade, o nobre velho havia aprendido a reconhecer os artifícios e a estudar as tentações. Ele soube prontamente que o deserto mentia e prosseguiu em seu caminho.
Finalmente, ele chegou ao fim do mundo. Lá, havia uma gruta escura e profunda. O velho entrou na caverna, aguardou que seus olhos se acomodassem à escuridão. E foi então que ele percebeu uma forma que se movia na penumbra. Se tratava de uma mulher muito velha e muito feia. No entanto, ele a reconheceu sem demora: era a verdade. Bem desapontado por sua aparência hedionda, ele se prostrou diante dela e lhe disse: "Eu te busquei no mundo todo e você não estava em lugar nenhum. Jovem eu parti e velho chego aqui. Por que te escondes de todos os olhares? Todos te esperam e te anseiam. Por que foges de teus amantes? Por favor, deixa teu retiro e me acompanha até o mundo." A verdade não respondeu. O velho homem insistiu por dias e dias, mas a verdade permaneceu calada. Então, quando compreendeu que ela não deixaria nunca seu esconderijo de sombras situado no fim do mundo, ele lhe disse: "Eu te deixarei, agora, já que te recusas a vir comigo. Mas antes de partir eu te peço um único favor: confia a mim uma mensagem para que eu a leve pelo mundo às árvores, às montanhas, às florestas, aos oceanos, aos pássaros, aos peixes, aos mamíferos, aos insetos, aos homens, aos sábios, aos filósofos e aos homens de deus. Assim eu poderei lhes dizer: "eis uma palavra de verdade."
Então, a verdade, aquela mulher velha e feia, o olhou no fundo dos olhos e pronunciou apenas essas palavras: "Vai e diz pra eles que eu sou jovem e bela."

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