segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Observação de Pássaros no Parque do Ibirapuera


Quando me convidaram para uma expedição no Parque do Ibirapuera para observar pássaros, confesso, meu primeiro pensamento foi bem preconceituoso. O que vou ver? Aquele monte de urubu que vive em volta do lago, os patos e gansos,  pombos e os sabiás, que me acordam todos os dias antes do sol nascer? Onde está a diversão nisso?

Eu fui pagar para ver e acabei de queixo caído.

Foi um passeio muito prazeroso, não senti as horas passarem, a vida no parque começa agitada desde cedo entre os animais alados, são tantas as espécies que os olhos de quem não está acostumado ficam meio perdidos. Só na primeira árvore que paramos, já dava para perceber o alvoroço de tantas diferenças e muitos cantos eram identificados. Tive oportunidade de observar, munida apenas de um pequeno binóculo, uma infinidade de cores, formas e movimentos.

As aves que mais gostei de ter encontrado na expedição foram o pica-pau-anão e anu-preto e uma coruja mocho que estava imóvel numa árvore muito alta, até brincamos que ela poderia ser de brinquedo colocada lá de propósito.

E no final, como uma observadora inexperiente, que não levou nada para anotar o que viu, pude lembrar mais de 30 espécies diferentes vistas naquela manhã e lugares do parque que não conhecia e que eu pensava que já andava de olhos vendados de tanto que caminho por lá.

Terminei encantada com a experiência, querendo repetir, atenta a tantos cantos e gostando ainda mais dos passarinhos.

E vamos passarinhar!

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A mentira da verdade

Há algum tempo conheci, no Boca do Céu, Mafane, uma moça com um estilo muito bonito e interessante de contar histórias. Como uma história puxa outra, acabei descobrindo que ela tem um belo site (em francês) www.mafane.com onde é possível conhecer um pouco do trabalho dela e algumas histórias que ela coletou. Uma me tocou muito e a reproduzo aqui em tradução livre:
Um homem jovem e idealista ouviu dizer uma vez que a verdade é uma mulher jovem, bela e desejável. Tão desejável que o homem suficientemente feliz em conseguir encontrá-la se sentiria completo para sempre. Desde esse instante, o jovem sentiu seu coração se inflar de desejo pela bela desconhecida e jurou consagrar sua vida a encontrá-la.
Ele a procurou primeiro nos livros de sabedoria e de filosofia, mas descobria sem parar novos livros que desmentiam, com base em provas, as verdades publicadas antes deles. Ele a procurou nas religiões, porque toda religião pretendia possuir a verdade última; mas essa verdade era ardentemente contestada pelas outras religiões.
Então ele a procurou no vasto mundo. Cada vez que chegava a uma cidade ou vilarejo, ele perguntava: "Vocês conhecem a verdade? Ela vive aqui?" E cada vez alguém respondia: "A verdade? Sim, ela passou por aqui há muito tempo. Mas ela partiu e ninguém sabe pra onde ela se foi."
Tendo visitado cada cidade de cada país e tendo gasto mais da metade da sua vida, nosso caçador da verdade abandonou os homens e se dirigiu à natureza. Ele interrogou longamente as árvores, as montanhas, as florestas, os oceanos, e igualmente os pássaros, os peixes, os mamíferos e até os insetos. Ele perguntava: "Vocês conhecem a verdade? Ela vive aqui?" E árvores, montanhas, florestas, oceanos, pássaros, peixes, mamíferos e insetos respondiam invariavelmente em suas próprias línguas: "A verdade? Sim, nós a vimos passar por aqui, há bastante tempo, mas ela não se deixou ficar e quem sabe onde ela pode estar agora?"
O jovem havia se tornado um homem velho e ainda procurava a verdade. Depois de ter esgotado os recursos da sabedoria, dos homens e da terra, ele chegou a um grande deserto de areias brancas. E interrogou o deserto: "Você sabe onde está a verdade?" E o deserto respondeu: "Ela está aqui. Porque eu sou a verdade." Mas de tanto buscar a verdade, o nobre velho havia aprendido a reconhecer os artifícios e a estudar as tentações. Ele soube prontamente que o deserto mentia e prosseguiu em seu caminho.
Finalmente, ele chegou ao fim do mundo. Lá, havia uma gruta escura e profunda. O velho entrou na caverna, aguardou que seus olhos se acomodassem à escuridão. E foi então que ele percebeu uma forma que se movia na penumbra. Se tratava de uma mulher muito velha e muito feia. No entanto, ele a reconheceu sem demora: era a verdade. Bem desapontado por sua aparência hedionda, ele se prostrou diante dela e lhe disse: "Eu te busquei no mundo todo e você não estava em lugar nenhum. Jovem eu parti e velho chego aqui. Por que te escondes de todos os olhares? Todos te esperam e te anseiam. Por que foges de teus amantes? Por favor, deixa teu retiro e me acompanha até o mundo." A verdade não respondeu. O velho homem insistiu por dias e dias, mas a verdade permaneceu calada. Então, quando compreendeu que ela não deixaria nunca seu esconderijo de sombras situado no fim do mundo, ele lhe disse: "Eu te deixarei, agora, já que te recusas a vir comigo. Mas antes de partir eu te peço um único favor: confia a mim uma mensagem para que eu a leve pelo mundo às árvores, às montanhas, às florestas, aos oceanos, aos pássaros, aos peixes, aos mamíferos, aos insetos, aos homens, aos sábios, aos filósofos e aos homens de deus. Assim eu poderei lhes dizer: "eis uma palavra de verdade."
Então, a verdade, aquela mulher velha e feia, o olhou no fundo dos olhos e pronunciou apenas essas palavras: "Vai e diz pra eles que eu sou jovem e bela."