sexta-feira, 19 de julho de 2013

O macaco e o periquito

Tudo começou numa manhã ensolarada de domingo. Era primavera e as flores caiam. Não me pergunte porque, tudo era muito estranho, mas o cenário era bonito porque o pátio ficava todo enfeitado de cores. Pairando sobre os ares da Guanabara vinha um periquito. Ele era verde, como todo o periquito, mas tinha uma mancha preta no peito, o que era diferente. E ele voava solitário, lá no alto, como se fosse para algum lugar. Sei que é estranho também um periquito voando pela Guanabara, mas nossa história é estranha mesmo. Ele era um periquito especial porque no fundo ele sabia que os cactos só picam aqueles que tem medo, ou aqueles que não sabem que os cactos picam. E para os que não tem medo, os cactos dão o mais puro néctar dos deuses olímpicos, bebida deliciosa e um alimento que sustenta por dias. Uma cidade grande como o Rio de Janeiro (ou qualquer outra da baia) não oferece lá muitas alternativas para os periquitos sobreviverem, e por isso este, meus queridos - que tinha praticamente esgotado todas as frutinhas do quintal onde estava fazendo residência, sendo que as poucas que restavam caíam com as flores e apodreciam - este periquito estava fazendo sua viagem com um destino certo: o cacteiro de Jacó.

Jacó era um homem pobre, que tinha uma mania, ele plantava cactos na praça em frente à igrejinha da favela. Era algo muito peculiar, diferente mesmo, algumas pessoas paravam e reparavam, curiosos pra saber o que fazia aquele monte de cactos no meio de um morro do Rio de Janeiro. Mas a maioria das pessoas numa cidade grande está correndo (com certeza muito menos que em São Paulo, mas ainda assim) e pouco davam consciência para aquele jardim estranho. O periquito, no entanto, além de ter notado os cactos da primeira vez que passou por lá, ele sabia muito bem o quanto eles valiam.


Periquito havia um dia sido um pássaro preso. E sua moradia era a loja de produtos de 1 real que havia na esquina daquela praça. Certo dia, um menino entrou com a mãe para comprar um absorvente de terracota, algo usado para jardinagem... alguma coisa, e o menino trazia um vaso de cactos. O dono da loja alertou o menino sobre os espinhos, mas ele era muito mais conhecedor do assunto que o senhor de camisa azul aberta até o peito mostrando os pelos brancos. Ouvindo o menino foi que o papagaio... ou melhor periquito, que não é a mesma coisa, aprendeu sobre os tais dos incríveis cactos. Na saída, depois de descobrirem que a loja não vendia o tal absorvente (não sei o que deu na cabeça deles de acharem que venderia ali), um sopro de vento fez a franja do menino cair sobre seus olhos. Cego e incomodado pelo cabelo que o cutucava, levantou o braço rápido para descobrir a vista. A loja era um abarrotado de coisa, lógico que o menino, cego que estava, esbarraria em algo, e para a sorte do periquito, foi a gaiola. Que caiu, abriu a portinha e enfim, liberdade. No caminho de partida, como estava com aquele negócio de cactos na cabeça, reparou pela primeira vez que haviam os cactos na praça e um velho homem estava cuidando da terra e plantando um mais.


Jacó era escultor. Mas como muitas vezes não tirava muito dinheiro da sua arte, fazia também obras. Naqueles dias, estivera trabalhando na casa de um biólogo. Obra, vcs sabem como é, uma bagunça. O biólogo uma hora se enfezou e decidiu que não dava pra ficar no meio da guerra que parecia sua casa, disse que iria partir, ficaria um mês fora, e na volta queria ver tudo pronto. Pediu que Jacó alimentasse os bichos, avisou que havia comida suficiente e mostrou onde estava. Mas e os fins de semanas? Os bichos aguentam... puxa... menos o chimpanzé. Morrer ele não vai, mas, coitado, vai sofrer demais... e vai fazer a maior bagunça. Já vi ele tacar bosta na casa inteira. Acho que isso pode atrapalhara a obra, não é, seu Jacó. Ah, meu deus, caramba, e agora! Eu não aguento ficar mais um minuto nessa pocilga. Oh, seu dono, peraí, não precisa chamar sua própria casa de pocilga, tá uma bagunça, mas é sua casa. Dá azar! Tá, mas o fato é que eu vou... só agora não sei como... o que eu faço com o maldito chimpanzé? Oh, seu dono, peraí, não precisa chamar de maldito o pobre do macaco. Se eu ficasse dois dias sem comer capaz que ficasse com tanta raiva que cagasse na casa toda só pra descontar. Dá pra compreender, seu dono... Olha, é muito difícil cuidar do bicho?


Foi assim que seu Jacó passou a levar o macaco pra casa. Levou no primeiro fim de semana. E de preguiça resolveu deixar ele em casa, até que o dono voltasse. A obra ficava mais calma enquanto trabalhava e ele gostava da companhia do bicho quando chegava em casa. Sua mulher não gostou muito, mas mulher de pedreiro tem que reclamar bem alto pra pedreiro ouvir. E ela resmungava só. Quando chegava de noite, uma resmungadinha só servia pra acender o fogo, Jacó pegava ela de jeito e pronto. Tudo resolvido. Com o tempo a mulher gostou do bicho, viu.


Voltando ao periquito, agora ele já está sobre a praça, lá do alto vendo os cactos. Receoso de se aproximar de uma vez, verifica bem pra ver se seu antigo dono não está em algum canto. Parece que está tudo limpo.

Desceu. E sem medo pousou no cactos. Os espinhos dobraram como se fossem pelos, e o passarinho com seu bico fez-lhe um furo e começou a beber. A praça estava cheia de flores no chão, e o cenário estava bem bonito, dia de sol no Rio de Janeiro, sombra da árvore, cactos a vontade pra matar a sede, era o paraíso. Pelas frestas das folhas uma luz passava conforme o sol se mexia. Periquito fechou os olhos numa dessas vezes, sentindo o calorzinho na cara e assim nem viu se aproximar Jacó. Era fim de semana e o homem adorava mexer no seu jardim quando tinha folga. Ao se aproximar notou curioso o pássaro verde, pôs a mão na cintura e sorriu. Chegou bem perto e o pássaro de olhos fechados não percebeu. Pensou em pegá-lo, mas o pensamento passou. Ajoelhou na terra e começou a trabalhar. O barulho da pá fez o bicho acordar. Viu o homem trabalhando e ia se assustar, mas ficou com preguiça. Estava muito é bom aquele mel todo e decidiu que estava seguro.


Horas se passaram. Quando Jacó viu que o pássaro estava furando sua planta teve o impulso de espantá-lo, mas notou que os furos formavam um desenho. Lembrou das suas esculturas, suas ferramentas guardadas, a brincadeira de inventar alguma coisa e dar vida. Fingiu que o pássaro era uma escultura e os furos no cactos um enfeite. Além do mais, pra pegar o bicho tinha boas chances de se furar todo com aqueles espinhos. Como é que o passarinho ficava pousado ali é que ele não entendia.


Já era perto do meio-dia,... não! era mais! quase uma hora! Jacó esquecia do tempo quando brincava no seu mundo de terra e carvão. Se deu conta do horário porque viu a mulher cruzar a rua e entrar na praça. Trazendo o macaco pela mão. Jacó, já passou da hora do almoço, homem, vem pra casa que eu tô com fome. Senão vou comer sozinha! Ah, Maria, me perdi na hora. Mas mulher, que vc tá fazendo trazendo o macaco pra rua? Ah, Jacó, ele tá acostumado. Quando vc sai pra trabalhar eu que fico com ele. Ele não gosta de ficar sozinho, sabe, genioso, faz barulho, se bate, é uma coisa horrível. Então eu comecei a levar ele comigo. O pessoal do bairro já até tá conhecendo o bichinho. Mas, mulher... Bom, vc sabe o que faz. Ele nunca aprontou nada com ninguém? Nada, homem, o bicho parece ensinado, parece uma criança, viu, eu nunca vi! Tá, mulher, eu já vou, mas me ajuda aqui então. Segura esse pedaço de toco e empurra. O macaco, os dois esqueceram. A mulher soltou e foi ajudar o marido. Acho que ela estava já achando que o macaco era mesmo uma criança. Força, aqui, uma alavanca ali, vai, agora! Ufa! O buraco tava limpo. Pronto podemos ir. Onde tá o macaco?



Olha pra lá, olha pra cá. E ali estava. Paradinho, com os olhos caídos, como se estrelas flutuassem sobre sua cabeça, o macaco encarava o periquito bem de perto. E o periquito nem percebera porque estava em um de seus momentos de meditação, com o solzinho na cara. Encheu o peito, suspirou e abriu os olhos. Estava tão calmo, como se fosse o Dalai Lama. Nada o assustaria, nem mesmo os olhos de um chimpanzé encobrindo toda a paisagem a sua frente. Curioso, duvidou que não fosse um sonho por um momento. Afastou a cabeça um pouco, só com um movimento do pescoço, pra ver se entendia o que era aquilo. Parecia... um macaco!? Que tinha os olhos mais doces que ele tinha visto. Na cabeça os pelos pretos pareciam um cobertor e era justamente para onde o sol tinha migrado. Naturalmente, atraído pela perspectiva de ficar mais um pouco no sol, agora sobre um tapete macio, pulou para o côco do bicho. Jacó e a mulher olhavam sem se mexer, rindo-se por dentro, mas quietos por fora pra não atrapalhar. O macaco olhou pra cima, lentamente se virou, foi até a mulher e lhe deu a mão. Como uma criança, só que agora com um passarinho na cabeça. Jacó se levantou e sorrindo, sem dizer nada, caminhou junto da mulher de volta pra casa.