segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Máquina de Fazer Algodão Doce do Meu Avô

Meu avô, pai da minha mãe, era meu vizinho no tempo em que eu era criança. Contavam-me histórias de um esposo e pai cheio de braveza, de um homem duro e um tanto áspero. Mas não foi este avô que conheci. Tinha nele sim um tanto de cada um destes jeitos, mas em doses diminuídas. O tempo e a dor trataram de diluí-los em água. A braveza que restou no meu avô, às vezes, metia-me medo e, em outras vezes, parecia-me um tanto engraçada.
Ele tinha algumas peculiaridades. Uns fazeres de deixar criança de boca aberta. Equilibrava um tanto de coisas em seu queixo, de vassoura a cadeira. Ficava por um bom tempo neste brincar de não deixar cair. Ele era alto e isto deixava a façanha ainda maior. Descascava laranjas e a casca não se partia. Ficava inteira, parecia uma fita verde para medir distâncias. Bananas! Ele colocava uma banana inteira na boca, assim de atravessado, e só depois mastigava. Talvez tivesse vontade dos inteiros. E não eram as bananas maçã, eram as nanicas, que de nanicas nada têm. Aliás, nunca entendi porque as bananas nanicas foram assim nomeadas. Mas isto já é outra história. Para finalizar as aventuras frutíferas de meu avô falo das mangas. Sempre que pegava uma ele dizia que manga era boa refeição por que tinha terebentina. Eu nunca pesquisei para saber se isto era verdade. Sempre esperava ele repetir esta palavra. Ela me soava estranha e era boa de ouvir. A palavra era sempre a mesma, e ao mesmo tempo, diferente das demais. Ele almoçava e sua sobremesa era uma manga, destas bem grandes. Gostava mesmo da tal terebentina. Como podia caber tanto dentro de um homem só?
Ele tinha, um pouco abaixo da axila direita, uma verruga. Diferente que de qualquer outra. Ela balançava. Apenas uma parte dela ficava presa na pele dele. Eu adora brincar com ela. Ele deixava. É bom deixar balançar aquilo que aprendeu a ser inflexível.
Sua televisão ficava na varanda. A sua rede também. Espreitando por cima do muro, que separava as nossas casas, eu podia ver meu avô buscando novas imagens-viagens.
Lembro-me de muitas cenas onde eu e meus irmãos brincávamos de pintar o meu avô e vesti-lo com roupas esquisitas. Ele divertia-se com a gente. No olhar da minha mãe eu via uma saudade perdida e agora encontrada. Nas brincadeiras entre netos e avô ela relia a sua história.
Ele teve um monte de profissão. Repartido em vários fazeres. Vendedor de livros, principalmente, as enciclopédias. Um todo construído de várias partes. Volume e peso. Aquele tipo de vendedor que batia de porta em porta. Algumas abriam-se, outras não. Eletricista. Voltagens. Diversas voltagens. Garçom. Servia junto com a comida conversas. Vendedor de materiais de construção. Entendia tudo sobre as construções concretas. Pintor. A tinta cobria as marcas das paredes erguidas. Marceneiro. Móveis que guardavam. Estantes. Prateleiras.
Aposentou-se e preservou no quintal de sua casa sua marcenaria. Ali ficavam as madeiras, as ferramentas e vários outros apetrechos. Tudo era bastante organizado. Ele guardava muitas coisas. Não houve tempo de dar utilidade a tudo o que acumulou.
E foi aí, nesta marcenaria no quintal que ele construiu...uma máquina de fazer algodão doce! Era incrível! Depois de construída ele colocou-a em um quarto no fundo da sua casa. Ocupava a parte central do cômodo. Tinha lugar de destaque devido à sua importância. Para mim e meus irmãos era pura mágica. O açúcar era colocado em um recipiente grande de alumínio que tinha um furo no meio, onde havia o motor que fazia tudo girar. O giro era muito rápido. Rápido mesmo. Aos poucos o açúcar transformava-se em algodão. Meu avô nos entregava algumas hastes e nós mesmos íamos construindo o nosso algodão doce. Ele ia ganhando volume assim como nosso desejo de saboreá-lo. Não havia corante, eu gostava disso. Branco. Não sei o que era mais gostoso, ver o algodão doce nascendo ou saboreá-lo sabendo que eu tinha participado do seu nascimento.
A máquina de fazer algodão doce do meu avô ficou ali no quarto, no fundo da sua casa, por um longo tempo. Nunca a levamos para a nossa casa. Não teria a mesma graça.
Mudamos de cidade, meu avô ficou, e eu nunca mais vi um algodão doce nascer, puro e branco. Sinto saudades daquela máquina de fazer algodão doce. Saudade do açúcar transformado em algodão. Saudades do doce que meu avô pode me dar.