quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Meu Primeiro Beijo

Tem um tempo em que menina acha menino tonto. Até que chega um tempo em que algum menino deixa a gente meio tonta. Comigo foi assim. Eu era criança. Havia ali, na escola, na minha sala, um menino que era diferente dos outros. Quando eu ficava perto dele eu me sentia meio sem graça. E quando ele faltava na escola era a escola que ficava um pouco sem graça. Ele era mais ou menos do meu tamanho. Não era um garoto alto. Mas o espaço que ocupava em mim era grande. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. Disso eu sabia. Não porque ele dizia. Sim porque ele demonstrava. Perto de mim ele também ficava meio sem graça. Todo mundo da nossa classe, e aquele era o nosso mundo, sabia que um gostava do outro.
Ele era bom nos esportes. Fazia hipismo. Participava de campeonatos de skate. Eu ia assistir ele e seu skate. Ficava ali, meio de longe, torcendo por ele. Achava ele bonito. Gostava do seu jeito.
Eu não queria que ele me pedisse em namoro. Ele já tinha namorado algumas meninas, disso eu sabia. E eu não queria namorar. Eu era criança, e lá, na infância, eu queria mesmo era gostar, namorar não. Me lembro das conversas que eu tinha com meu pai a caminho da escola. Eu dizia que gostava daquele menino e sabia que ele gostava de mim. Só que se ele quisesse namorar eu não ia querer. E eu não queria dizer não pro menino que eu gostava. Não. De jeito nenhum.
O tempo passou. Eu mudei de cidade. Lá ficou o menino que eu gostava. E cada vez mais lá ficou. Cresci. Chegou a hora em que a infância foi ficando e meus desejos de menina foram ganhando forma.
Dei o meu primeiro beijo. Eu não gostava muito do menino que beijei. Não era assim apaixonadinha por ele. Mas eu tinha vontade de beijá-lo. E foi bom. Foi muito bom. Eu nunca contei pra ele que nele dei o meu primeiro beijo. Não sei se ele desconfiou. Lembro do lugar, da minha roupa, da roupa dele, e da sensação de prazer misturada com uma baita insegurança. Ele tinha uma boca macia, um beijo na medida do meu desejo. Nos beijamos mais algumas vezes. E este tempo também passou.
Outros momentos. Outros meninos. Outros beijos.
Um dia reencontrei uma amiga daquele tempo de infância. E ela me disse que havia encontrado aquele menino! Aquele, do começo desta história. Incrível! Estávamos morando na mesma cidade. Me deu vontade de saber dele, 20 anos depois daquele gostar. Liguei para ele. Combinamos de almoçar juntos. Nos encontramos no restaurante que ele indicou. Era um lugar bonito. Quando eu cheguei ele já estava lá. A gente se olhou e a minha alegria em revê-lo também era a dele. 20 anos depois! Ele disse que conseguia ver em mim aquela menina. Eu também podia reconhecer nele aquele menino. Conversamos muito. Sorrimos muito. Nos alegramos com a presença um do outro. Até que ele disse que eu tinha sido a primeira menina de quem ele tinha gostado. Eu disse o mesmo. Não perderia a oportunidade de dizer isto. E contei das minhas angústias lá da infância, do medo que eu sentia de alguma aproximação mais concreta, já que eu sabia que diria não. E que, para ele, eu não queria dizer não.
Almoçamos. Ele sugeriu um prato. Escolheu um vinho.
Foi um longo almoço. Entrei no carro dele que preservava um skate no bagageiro. Levou-me até a minha casa. Quando fomos nos despedir demos aquele beijinho de canto de boca. Aquele que quer beijar a boca inteira mais ainda não tem coragem. Depois, um simples selinho. Então eu disse: Acho que este teria sido nosso beijo lá de trás. Ele completou: Então vamos beijar direito! Beijamos direito. Direitinho. Enquanto o beijo acontecia eu pensava estar dando o beijo primeiro. O beijo que teria sido o primeiro. A história minha junto a dele acaba aí. Quem lê pode pensar: só isto! Eu digo: tudo isto! Na medida de um primeiro beijo, 20 anos depois de tantos outros.