sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Jacaré com Bruxismo

Ninguém suportava mais a presença daquele bicho. - Jacaré velho, rabugento e chato! É o que os outros animais diziam dele. Vivia discursando suas teorias de como viver bem em comunidade desde que ninguém incomode e nem converse futilidades uns com os outros.

Sempre só, não ligava para companhias. Gostava de ficar boiando na água pensando na vida, assistindo os peixinhos por baixo d’água e os passarinhos voando e com um graveto na boca, como aquelas pessoas que ficam com o palito de dente pendurado depois de palitar os dentes após as refeições.

Já não representava um perigo para os outros habitantes e visitantes da lagoa. Seus dentes eram gastos e sem ponta, conseqüência do bruxismo. Aliás, muito barulhento quando dormia, roncava forte e rangia aquele monte de dentes. Conseguia superar o coaxar dos sapos e o estrilar dos grilos.

Quando acontecia algo diferente na lagoa, se desestruturava inteiro. Ficava nervoso. Nada poderia mudar sua rotina, nada de “anormal” poderia acontecer. Os dias deveriam ser todos iguais para manter sua calma e paz de espírito.

Os outros animais, moradores da mesma lagoa, não aguentavam mais. - Tudo tem que ser como ele quer! Se não, eram obrigados a aguentar seus discursos vários dias e o que é pior, nunca esquecia. Quando lembrava o assunto depois de alguns dias, meses ou anos, lá vinha ele com o mesmo falatório sem emoção e na mesma entonação.

Quem que aguenta? Ninguém tinha mais paciência, então deixavam o jacaré com suas manias, sozinho, não o incomodavam, passavam longe dele. Deixavam que ele se sentisse o rei daquela lagoa.

Até que um dia, da noite para o dia, sem saber como e nem de onde, apareceu um jacaré mais jovem na lagoa.

- Como veio parar aqui?
- Não sei. Só apareci.
- Como assim? Não tinha outra lagoa para você mergulhar?
- Se eu pudesse escolher, não estaria nesta, com certeza.
- Hum...Já que não tem jeito, preste atenção nas regras...
- Regras? Que regras? Não tenho o costume de seguir regras. Faço o que quero, na hora que der vontade. E é melhor não se “meter à besta” comigo, meus dentes ainda são afiados.

Respondendo isto o jovem jacaré virou as costas e sumiu no meio da lagoa.

Os animais estranharam o lago naquela noite, um silêncio medonho. Ninguém estava ouvindo os roncos e nem o ranger dos dentes do velho jacaré. Ele não dormiu. Ficou nadando silenciosamente de um lado para o outro pensando em como se livrar do novo jacaré. Não queria que sua vida mudasse. Aquela lagoa era pequena demais para dois jacarés. Ah se ele ainda tivesse os dentes afiados... Resolveria esta história num instante.

Além dos dentes gastos, não tinha mais energia para lutar, só queria sua vidinha de mordiscar gravetos de volta.

O novo jacaré já foi tomando conta da lagoa. Os animais tinham medo dele. Aproveitava a situação e fazia tudo o que queria, comia tudo que via pela frente. Alguns animais se mudaram, outros viviam escondidos. Assim, a vida na lagoa mudou completamente.

Os animais já não tinham paz, o que poderiam fazer? Uma capivara gorda, amiga do velho jacaré resolveu esquecer a chatice de seu amigo e foi conversar com ele. - Podíamos fazer alguma coisa, mas o que? Você não é o rei da lagoa? Pense em algo.

– A única coisa que quero é sossego! Se virem!

É fato! Não podiam contar com aquele velho jacaré que só pensava em si mesmo.

A natureza ajudou. Ao amanhecer de uma nova estação começou a chover sem parar. O lago começou a encher. Encheu tanto que ficou a meio metro de outro lago das redondezas, muito maior e muito povoado. Tinha famílias inteiras de jacarés e outros bichos. E o mais interessante: comida que não acabava mais, para todos os gostos.

Uma fêmea de jacaré, por curiosidade chegou perto da lagoa. Como num despertar de sentidos, os dois jacarés nadaram para perto da margem. Sentiram tonturas, tremores nas pequenas pernas e ficaram com os olhos vidrados, reconhecendo na fêmea a continuidade da espécie.

A fêmea olhava aqueles dois pares de olhos alucinados e gostou do que sentiu. Estava se divertindo. Disse que um dos dois poderia se mudar para a lagoa dela. Como era uma disputa de jacarés por uma fêmea? O velho jacaré nem pensou no assunto, abriu mão de seus impulsos e disse ao outro jacaré que ele poderia ir, sem brigas. Sem olhar para trás o novo casal de jacarés foi embora para a lagoa maior, sumindo em suas águas.

Naquele instante, todos os animais da lagoa já sabiam, como se a vida voltasse ao normal, haveria muito barulho à noite.

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