sábado, 24 de abril de 2010

CRIA

(Texto produzido em aula de Dramaturgia, por Rubens Rewald) – Kika Antunes

- Nasceu???
- Nasceu. É um menino, lindo!!
- Meu Deus, nossa caçula hein!!
- Pois é, a nossa raspa do tacho!!
- E vai se chamar Tito mesmo?
- Vai, ah mas eu gosto. Combina com ele e com ela.
- E ela, como está?
- Ta outra. Mudou. Virou mãe, né? Isso muda mesmo!
- Será mulher? Você não mudou quando virou mãe de tantos filhos...
- Cê que pensa! Tudo mudou! E o tudo era eu.
- Nossa, eu não reparei...
- Claro que não! Quem teve a vida mudada era eu... Você continuou a sua vida, o seu corpo, quer dizer... você mudou, sim. Engordou prá burro!
- Ah, nisso você também mudou...
- Que é marido? Ta falando que eu...
- Não, não mulher! Só to falando que isso muda mesmo...todo mundo sabe. Todo mundo engorda depois que tem filho!
- Não, mas eu to falando que ela mudou diferente! Assim como eu, quando o nosso mais velho nasceu. A gente muda diferente! O “eu” muda. A gente não se reconhece mais. O corpo, a alma, o mundo de dentro, entende?
- Não! Acho que você tá exagerando! Eu a vi e não senti essa mudança toda, não. Ela ta inchada, mas isso daqui há pouco volta...
- Não volta! Não é esse inchaço a diferença! É o olhar dela. Ela não vê mais o mundo com o olhar de antes. Ela olha prô mundo agora, com um novo olhar. E ta aflita com isso. Queria falar pra ela que tudo isso é normal. Que ela aceite essa mudança, não resista. Que ela não sofra com isso e sim se divirta com o novo. É linda esta transformação!
- Pois então, mulher. Fala pra ela. De coração prá coração. Não precisa falar como você está me dizendo... É só olhar pra ela com esse olhar que você tá falando! Ela vai entender sabe por quê? Você é a mãe dela! E agora ela é a mãe do Tito. A vida é isso. O Tito vai casar e a mulher dele vai precisar desse olhar também... Ensina ela à ensinar isso prô Tito. Ela é a nossa caçula e não teve tempo de aprender isso com você!
- Ô meu velho...
- Ô minha velha...

domingo, 11 de abril de 2010

PALAVRAS desde o princípio.

Passeando no banco de trás do carro do meu pai, caminhando de mãos dadas com minha mãe nas gigantes e inesquecíveis calçadas de Maringá eu ia lendo as placas, as propagandas, os dizeres das ruas. Leitura em voz alta. Compartilhava a alegria da presença das palavras em minha vida.
Minha casa sempre teve muitas letras. Elas tinham um sabor doce. Gosto de fruta colhida no pé. Cheiro de terra molhada. Som de cachoeira. Textura de abraço. Visão de arco-íris. Saltavam dos livros, das capas dos discos de vinil, dos jornais, revistas, dos escritos de meu pai, das receitas no caderno cheio de farinha de minha mãe, dos bilhetinhos da minha mãe, que ficavam em cima da mesa, colados nas paredes, pendurados na geladeira. E quando era meu aniversário...Acordava com as palavras “Feliz Aniversário, Renata”, penduradas em algum canto da casa. A música para despertar o novo em mim era do palhaço Carequinha. Eu cantava junto com ele e minha família. Era parabéns para todo lado.
Minha brincadeira preferida: Brincar de ser professora. Aos finais de semana a escola de verdade era meu brinquedo. Meu pai criou e dirigia uma escola que eu amava. Chamava-se Colégio Platão. Ela não mais existe, mas permanece em mim. Meus colegas da rua, eu e meus irmãos inventávamos nosso brincar com giz, lousa, apagador.
Sempre amei as letras e a permissão que elas dão para o nascimento das histórias. Há alguns poucos anos tive consciência deste amor em mim. Percebi que em tudo o que desejava fazer e em tudo o que fazia elas estavam presentes. Eram (são) protagonistas! Juntando-as posso me apropriar do que sinto. Revelar desejos e angústias. Fazer declarações de amor. Compartilhar alguma dor. Criar. Rever. Ensinar. Aprender. Ser. Estar. Viver.
Às letras minha gratidão. A junção de uma na outra me fez descobrir o valor de ser inteira. As palavras me acordaram. Acordaram tantos outros e têm fôlego – incansável – para acordarem muitos mais. Um acordar para não mais adormecer. Aqui firmo um acordo. Acordo todos os dias um pouco mais.