terça-feira, 16 de março de 2010

"O menino parou pra ver o mar"

O mar foi sua segunda paixão.
Nadar não sabia. Ainda! Mas isso não diminuía o fascínio que toda aquela água lhe causava. Todo dia ia até a beira do deque e ficava encostado na mureta, vendo as ondas quebrarem nas pedras abaixo. Ficava ali por muito tempo, os olhos negros brilhando enquanto os dentes de cima mordiam o lábio inferior. Quando uma onda maior batia na madeira abaixo de seus pés, se levantava correndo e ia até a cerca. Um sorriso muito leve se esboçava em seus lábios nesses momentos e ele prendia a respiração, esticando o corpo inteiro e ficando na ponta dos pés, com os braços esticados para trás, pra equilibrar, dobrando apenas levemente a cabeça pra olhar por sobre a mureta diretamente abaixo do píer. Seus olhos se arregalavam e ficavam, se isso fosse possível, ainda maiores e mais brilhantes. Permanecia assim, congelado, até que seu corpo não aguentava mais e a tensão era quebrada por um longo suspiro. Às vezes pegava algumas pedrinhas no caminho e jogava uma a uma na água, olhando as ondas que se formavam. Em outras, sentava-se com as pernas dobradas apoiando um livro enorme com fotos de peixes que ele havia encontrado na sede da pousada. Sonhava em pular na água e mergulhar no mar à procura das cores que via nas ilustrações do livro. Voltava pro chalé andando de costas, olhando o mar até que ele se escondesse totalmente atrás das árvores, receoso de perder qualquer movimento que a água fizesse.
Quando um barco se aproximava, ficava de longe observando a manobra até que ele encostava no cais e alguém pulava para amarrá-lo. Aprendeu só de olhar a fazer vários nós, que treinava com um pedaço de corda que havia por ali. Muitas vezes, seu pai vinha até o cais e perguntava se ele queria nadar. Então eles pulavam na água e o pai o sustentava enquanto nadava perto dos pilares ou mesmo mais longe. Uma vez o pai tinha arranjado uma máscara e ele podia prender a respiração e olhar pra baixo, enquanto seu pai o apoiava nos braços esticados. Aquelas eram as melhores férias de todos os seus cinco anos.

Quando mais tarde voltasse para casa contaria pros amigos na escola as mil aventuras que tivera durante as férias: “Tinha andado de barco todos os dias, mergulhado com seu pai e pescado muitos peixes enormes. Uma vez, o capitão tinha até deixado que ele segurasse o leme na saída da baía e era sempre ele que amarrava o barco no poste quando chegavam à pousada.” Os amigos acreditariam porque ele sabia mesmo fazer vários nós. Falaria sobre os peixes que tinha visto e sobre os lugares onde nadavam. Não seriam mentiras o que ele iria contar, pois ele tinha mesmo vivido cada uma daquelas histórias mil vezes na sua cabeça. Essas histórias se juntariam a muitas outras aventuras que ele já havia vivido, na selva, no espaço e no deserto. Mas as histórias do mar seriam especiais, porque ele tinha mesmo estado lá. O mar era a coisa mais legal que ele já tinha conhecido na vida.

Mas os momentos que mais gostava eram aqueles em que sua mãe vinha ficar com ele. Nessas horas, ele contava pra ela sobre os peixes, sobre o brilho da água e o barulho das ondas. Mostrava pra elas os nós que tinha aprendido e ela ouvia todas as suas histórias com grande atenção. Depois de brincarem na água ou na mureta por um tempo, ela ia se esticar em uma cadeira de praia e ele se apoiava na sua barriga. Olhando-a nos olhos, com a cabeça apoiada nas duas mãos. O melhor era quando ela fazia cócegas na sua barriga ou quando ele deitava no colo dela e os dois olhavam pro mar enquanto ela fazia cafuné até que ele dormisse ao som das ondas. Quando ela se levantava pra almoçar ou pra caminhar até o chalé, ele ia imediatamente, correndo e pulando ao redor de suas pernas, andando de costas pra olhá-la nos olhos com um sorriso maroto e os olhos muito arregalados. Algumas vezes, ela perguntava se ele não queria continuar olhando o mar, mas ele sempre respondia que voltava mais tarde. O mar sempre estaria ali. O mar era sua segunda paixão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A árvore

Numa terra distante, a milhas e milhas de qualquer território identificado nos mapas e registros oficiais, assim como acontece todo dia em algum lugar, nasceu uma arvorezinha. A árvore era uma cerejeira e parecia muito comum. Na verdade, parecia tão comum que ninguém se deu conta de qualquer coisa especial até o dia em que ela deu seus primeiros frutos. Era uma cerejeira que dava uvas! Todos que passavam por ela ficavam intrigados, como uma cerejeira pode dar uvas? Mas experimentavam, sempre com um pouco de suspeita, e surpresos descobriam que as uvas tinham gosto de melancia!

Cientistas de todos os lugares chegaram para investigar o fenômeno e depois de muitos testes em cadinhos e centrífugas e em uma porção de outros instrumentos muito científicos descobriram algo ainda mais surpreendente: o suco das tais uvas que tinham gosto de melancia era de cor laranja e seu gosto - o gosto do suco, diferentemente do gosto da fruta - parecia uma espécie de sopa de feijão!

Quanto mais se descobria sobre a estranha planta, mais rebuliço se causava, alguns queriam cortá-la para estudos mais profundos, outros queriam arrancar-lhe pedaços para replantar e criar pomares, outros achavam que era coisa do demônio e queriam destruí-la, mas havia aqueles que se achavam os donos da estranha planta e, além de ficarem discutindo direitos de propriedade sobre ela, não deixavam os demais fazerem nada. E quanto mais se discutia, mais pessoas se juntavam à discussão, o que logicamente acabou atraindo as pessoas mais importantes da cidade, o prefeito, o delegado, o padre e os advogados de todas as partes, o que, confesso a vocês, não parecia que estava ajudando muito.

Estavam todos assim, tão investidos em debates calorosos, que não perceberam Pedrinho chegando por trás dos tumultos, e se aproximando da árvore. Achou que ela era um bom espécime para ser escalado e lá foi ele. Só que conforme ele ia subindo, aos poucos e sem perceber, a árvore ia ficando muito, muito grande... Na verdade era Pedrinho que encolhia e encolheu tanto que ficou do tamanho de uma formiga, justamente quando se deparou com um espaço oco no tronco, um buraco que lhe parecia uma caverna. Sem entender como aquela árvore tinha crescido tanto mas muito curioso, Pedrinho resolveu entrar.

Primeiro estava muito escuro, mas conforme ele foi se acostumando com a falta de luz ele começou a ouvir uma música. Resolveu seguir o som, passou por um ou dois túneis e encontrou um salão enorme. Lá longe do outro lado, de onde vinha a música, ele viu um movimento. Ao se aproximar descobriu que eram três seres muito estranhos de narizes redondos e compridos que rodavam tocando seus instrumentos e se requebrando enquanto tocavam. Um carregava um tambor que tinha um som agudo, outro tocava uma flauta de madeira que parecia um galho de árvore e o terceiro tinha guizos pendurados pelo corpo e um instrumentinho que ele tocava com as duas mãos, fazendo uma melodiazinha bem delicada. Pedrinho achou aquilo muito divertido e entrou na roda seguindo os tais seres estranhos na sua dança esquisita. Isso não durou mais que alguns segundos, porque quando o grupo notou a presença do novo componente parou imediatamente de tocar e se formou em volta do garoto, cada um dos bichos olhando para ele com um olhar de desconfiança. Começaram a cheirar e cutucá-lo, o que fez o Pedrinho sentir cócegas. Apesar da cara hostil que eles faziam, Pedrinho não ficou com medo, não sei por quê, acho que porque eles eram mesmo muito engraçados de olhar.

Mas então se ouviu um estrondo, como se fosse uma porta batendo. Todos olharam para a direção do barulho e assustados viram aproximando-se uma figura enorme (pelo menos, comparada ao tamanho que eles tinham ali), vestindo panos verdes de várias tonalidades que se sobrepunham formando um vestido muito bonito, tinha o cabelo de folhas e um rosto de mulher, soberano e muito sério. Aproximou-se e falou com uma voz profunda: porque não há mais música? Em um movimento continuo e sincronizado, os três bichinhos de nariz redondo e comprido, deram um passo para trás empurrando Pedrinho na direção da impressionante entidade. Hummm, você não deveria andar por aqui, hein garoto, disse ela coçando o queixo. Sente-se. Claro que Pedrinho fez o que ela pediu e assustado viu ela se aproximar, se agachar na sua frente e começar a estender a mão na direção de seus olhos. Teve então um impulso e disse, você sabia que estão querendo derrubar a árvore. A dona parou, fez uma cara de dúvida e perguntou, por quê? Bom, acho que é porque essa árvore é muito estranha. Ela fez hummm e deu um leve sorriso. Em seguida voltou a estender o braço na direção de Pedrinho e dessa vez terminou o movimento colocando a mão direita na frente dos olhos dele, que então não viu mais nada. Sentiu apenas um sopro no rosto e em seguida a mão ser retirada. Abriu os olhos e surpreso descobriu que estava sentado à sombra da árvore!

Ficou um pouco confuso, meio em dúvida se alguma coisa daquilo tinha mesmo acontecido. À sua frente ainda estava a algazarra das pessoas que discutiam. Mas então ouviu a voz profunda de novo, falando em seu ouvido. Olhe pra cima. E, incrível!, percebeu que a árvore começou a florescer tão rápido que em poucos instantes estava toda coberta de flores amarelas! As pessoas que estavam na discussão, aos poucos foram notando a transformação e se calando, uma a uma, paralisadas e de boca aberta. Então um vento muito forte começou a soprar, levantando chapéus e vestidos, fazendo as pessoas se desequilibrarem rolando morro a baixo para longe da árvore. Apenas Pedrinho que estava protegido pelo seu tronco não saiu do seu lugar.

Desse dia em diante, ninguém mais conseguia se aproximar da estranha planta. E as pessoas aos poucos foram deixando de tentar. Ninguém conseguia, bom, com exceção de uma pessoa, você sabem quem, não sabem? Pois é, de vez em quando o Pedrinho voltava ao pé da árvore. Por via das dúvidas, nunca mais subiu nela, mas era comum ser avistado de longe, com o ouvido encostado no tronco da árvore, balançando os ombros e remexendo os quadris, como se estivesse ouvindo música :)

Os anos se passarem e o menino se tornou um homem e o homem envelheceu, com cabelos e sobrancelhas branquinhos, branquinhos. Certa tarde ele foi até o pé da árvore, e depois de ouvir um pouco de música, deitou ali mesmo e adormeceu seu último sono com um sorriso no rosto. As flores amarelas da árvore, que tinham ornamentado sua copa durante todos esses anos caíram de uma vez, nenhuma sobre ele e todas à sua volta. As pessoas, que há muito haviam se esquecido das estranhas histórias sobre a árvore, enterraram o corpo do Pedrinho - ou, agora, vovô Pedro - ali mesmo, próximo às raízes, lugar que ele gostava tanto. Terminada a cerimônia, enquanto as pessoas começavam a partir, a árvore que esteva vazia de flores nos últimos dias, como que por mágica, voltou a florescer se enchendo novamente em apenas poucos instantes, mas - vejam que coisa! - agora as flores eram todas lilases! Ao seu pé, uma menininha de vestido rosa que ficara pra trás do cortejo das pessoas que partiam, arrancou da árvore uma fruta vermelhinha, vermelhinha e sem qualquer dúvida a mordeu com vontade. O gosto que sentiu? Gosto de cereja!