terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bom Dia!


Hoje acordei com uma luz diferente vinda da sala. Não era a luz habitual do raiar do dia e nem as luzes artificiais da noite. Depois de prestar atenção por uns minutos, fui levantando aos poucos, meio tonta depois de uma noite bem descansada.

Fui andando lentamente em direção à sala, imaginando o que poderia ser aquela luz com características tão diferentes, quando olhei para a janela, senti uma emoção daquelas que são raras, que faz a pele arrepiar e o coração palpitar. Instantaneamente sorri. Havia um enorme arco-íris brilhando num céu ainda nublado, resquícios da chuva que caíra durante a noite.

Foi o melhor “bom dia” que eu já recebera na vida.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Preto e branco

Essa é uma história sobre preconceito, mas é uma história bonitinha. Aconteceu com um homem que sabia se perdoar.

Era quase hora do almoço e seu filho estava brincando lá fora. O homem foi até a calçada chamá-lo pra dentro e saiu pensando em coisas do trabalho, mas ao encontrar o filho seus pensamentos pararam e se sentiu apreensivo. Ele não estava brincando sozinho, ele estava brincando com uma criança negra. Uma criança negra!! Bom, pela reação talvez vocês já tenham entendido que tanto ele quanto seu filho eram (e ainda são) brancos. Aliás, nesse momento ele estava muito branco e sentia um suor gelado e fino como uma garoa em sua testa e têmporas. Então, sem falar nada, caminhou até onde o filho se encontrava, pegou-o pela mão - já está na hora do almoço, vamos - e praticamente arrastou o menino que deixou o terreno de seu jogo em protestos veementes.

Entraram em casa, o homem bateu a porta e se agachou sério, olhando no olho do menino. Este, entendendo sem entender que o assunto era sério, com medo de ter culpa de alguma coisa, silenciou. Filho, não quero mais ver você brincando com esse menino, viu, entendeu? O menino, cuidadosamente em frente à assustadora figura do pai, respondeu que sim com a cabeça e foi pra dentro cabisbaixo. O homem, se recuperando levantou-se, e voltando a si, pediu, vai lavar a mão e vem pra mesa que vamos almoçar.

Ao lado da janela estava a avó, que pela fresta das cortinas olhava a rua pra entender a agitação. Ah, mas então era isso? Um menino preto. Hummm, lembrou de como o marido, pai do homem, em diversas situações fizera a mesma coisa e sentiu uma pena de todos que molhou de leve seus olhos, pois viu ali apenas três meninos. O que podia fazer? Há tempos, aliás há muito muito tempo, o filho não lhe dava ouvidos. Resignou-se.

Assim, em um silêncio triste o dia passou, mas ela não foi dormir em paz e rolou um pouco na cama antes de pegar no sono. No meio da noite acordou com a lembrança viva de um sonho. Uma mulher negra, linda em um vestido verde e com cabelos soltos, longos e crespos, tirava de um esconderijo que havia no pé de uma escrivaninha uma antiga chave. Com essa chave abria uma caixa marcada com alguns desenhos bem característicos e então o sonho acabava. Mas aquela caixa... ela conhecia aquela caixa, acendeu a luz, se esforçando para suportar a repente claridade abriu o armário e depois de jogar algumas coisas pra cima, lá estava ela, a pequena caixa velha. Hummm, fechada. Rolou na cama até o outro lado do quarto onde estava a escrivaninha e tateando o pé, o mesmo que lhe aparecera em sonho, percebeu logo uma saliência diferente, a que nunca se daria importância se não se soubesse o que procurar. Apertou, puxou... abriu. E a chave apareceu junto com um sobressalto no coração que batia forte de medo, excitação e curiosidade. Abriu a caixa com um cuidado excessivo e encontrou dezenas de cartas e uma foto. Leu todas, uma a uma e no fim, sentindo-se mais leve, apagou as luzes e dormiu até o dia seguinte.

No dia seguinte, após ter feito o que sempre fazia no banheiro ao acordar, o homem foi até a mesa, posta com o café da manhã. Mas na sua frente, estranho, estava a caixa, uma caixa estranaha. O que é isso mãe? Ah, eu estava mexendo em umas coisas ontem a noite e encontrei, era do seu avô veja que interessante. Curioso o homem abriu e encontrou cartas. Não tinha que trabalhar, era feriado, não tinha pressa, começou a ler. A primeira era uma resposta, de uma mulher, que se dizia encabulada, mas se mostrava feliz, embora achasse que não deveria receber elogios assim. A segunda carta era da mesma mulher, tinha um tom mais divertido, mas ainda recriminava o que quer que houvera recebido. As cartas se seguiam contando uma história de um flerte que foi se transformando em desejo, em amor, em sexo, em cumplicidade mas continham um grande medo de separação. Aparentemente a mulher era uma espécie de serviçal e não havia como a família aceitá-la. Havia apenas mais uma carta que aparentemente teria sido recebida um par de anos depois, que falava de amor, saudades e falava de um filho que ficaria melhor com o pai rico.

O homem parou confuso, incomodado e seu sangue esfriou até ficar gelado. Esse filho... será possível?! seria seu pai!?! Com os olhos arregalados, lentamente, foi até à caixa mais uma vez e pegou a última coisa que ela continha, a foto. Era a foto em preto e branco de uma mulher, bonita, alta, de corpo forte, delicado e sinuoso, de um olhar doce, de cabelos crespos e de pele negra. Já entendendo quem devia ser a mulher, mas muito confuso, virou a carta procurando sinais e lá havia uma data e um nome. O mesmo nome assinado nas cartas. Um turbilhão de pensamentos e emoções que por vezes paravam em conclusões e lembranças, essa é minha avó? mas porque meu pai era assim? essa é a minha avó! então eu tenho sangue negro?! e olhando do lado de dentro lembrou de coisas de sua vida sentindo vergonha e culpa e dor, mas não, eu não sou negro, como posso ser? Terminou de comer alguma coisa e saiu pra rua, mãe, vou caminhar, sério, com o coração inquieto.

Algumas horas depois voltou, andar faz bem, estava melhor, mas ainda desequilibrado, apesar de ter a mente mais calma. Sentou na mesa, absorto no seu abalado mundo interior, quase não viu a mãe sentar ao seu lado e carinhosamente colocar suas mãos sobre a dele. Ficaram assim por alguns minutos, então alguém bateu na porta, a mãe fez menção de levantar, mas ele tocou em seu braço e foi, curioso, atender. Abriu a porta lentamente e surpreso encontrou do outro lado uma mulher negra, de vestido verde, cabelos crepos longos e soltos, e - estranho observar - peculiarmente bonita. Mas claramente nervosa, começou a falar, vc é o pai do menino? ah, isso não está certo, deixe-me dizer uma coisa, e prosseguiu contando que encontrara seu filho brincando com o dele escondidos porque o pai - no caso ele - tinha-o proibido de brincar juntos. Como assim? Queria uma explicação. O homem reagindo devagar, olhou pra baixo com um olhar no infinito e de leve deixou nascer um sorriso no canto da boca, junto com uma frase silenciosa, meu filho... Como vc chama? Ela deu o nome. Entendo sua reação, mas, me desculpa, eu não estou em condições de brigar, podemos não brigar? A mulher se sentiu desarmar, mas ainda resistia na raiva, ainda desconfiada, de braços cruzados e testa franzida. Ia continuar mas ele então disse, meio sem querer, mas como você é bonita... Disse com o desembaraço de uma criança que se surpreende e ela se perdeu de novo por uns intantes. Desculpe... por favor... eu nem sei mais nada... me desculpe... talvez fosse melhor você entrar, então de dentro veio uma voz, entre, venha, estou esquentando um cafézinho! Confusa e reticente, mas se sentindo sem muita escolha a mulher foi, atravessando, sem que eles soubessem, as fronteiras de um mundo que aos poucos se abria.