segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

SÁBADO, DIA 11, TEM CONTANTES NA LIVRARIA 97!

Convidamos e esperamos vocês para ouvirem e se divertirem com mais uma narração de histórias!

Sábado, dia 11 de dezembro, na Livraria 97, às 16h.

http://livrarianovesete.wordpress.com/sobre-a-livraria-nove-sete/

Venham! Venham!

Contantes Contentes.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Homem de Faz e Conta

O faz de conta das histórias tem como princípio convidar cada um a viver a sua verdade...


"Era uma vez um homem. Um homem de muitos fazeres e de muitos feitos. Ele fazia, fazia, fazia. Ele contava, contava, contava. Um contar da matemática, um mais um, mais um, mais tantos. Era um homem de faz e conta. Vibrava com cada novo fazer que acumulava. Em um armário, de quantidades incontáveis de gavetas, ele guardava cada feito. Se as gavetas eram incontáveis, eram ainda mais incontáveis seus fazeres.
Ele se surpreendeu quando, ao procurar uma gaveta vazia, não encontrou-a. Todas já guardavam algo. Pela falta de gavetas ele se pôs a colocar fazeres diferentes em gavetas iguais. De tal forma que cada gaveta começou a somar fazeres além do que dava conta. Mas ele, o homem, continuava a contar. Um mais um, mais um, mais tantos.
Algumas gavetas foram rachando. O homem continuava a acumular. Mais gavetas rachando. O homem continuava a acumular. Todas as gavetas racharam. O homem já não tinha mais como acumular.
Fazer, contar e acumular era tudo o que sabia.
E agora, o que fazer?
Sem saber a resposta, ele chorou. Já não se lembrava mais de quando tinha chorado pela última vez. Tanto fazer, tanto contar, tanto acumular fizeram com que ele – o homem – tivesse construído um armário de infindáveis e esgotadas gavetas, que mais parecia uma muralha. Nada dali parecia poder entrar ou sair. E quase nada ali ele sabia possuir. Estranho. Embora contasse e acumulasse, desconhecia o que acumulava.
O tempo passou. Muito tempo passou. E frente àquele armário que ele não podia mais negar, o homem do faz e conta, se deu conta de que sobrevivia de faz de conta. E todo o tesouro que tinha acumulado, dissolveu-se em migalhas de ilusão. Migalhas de faz de conta.
Decidiu não mais sobreviver de migalhas. Resolveu viver de realidade. Se pôs a revirar o armário. As rachaduras estavam lá, uma a uma. A cada gaveta uma parte de sua verdade.
E saiba, este não é o final desta história. É um novo começo".

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Até as Princesas!


Estavamos brincando de adivinhar: Que princesa é esta? E eu fazia um gesto ou imitava uma voz de princesa e a Julia dizia qual princesa eu representava.

Primeiro fingi que estava dormindo e ela respondeu: A Bela Adormecida!

Cantarolei uma canção pensando na Branca de Neve e ela respondeu: A Pequena Sereia! Desta eu tinha esquecido, mas valeu.

Lancei e puxei umas tranças imaginárias, ela não lembrou o nome da Rapunzel e disse: A das tranças!

Depois cantei outra canção e fiz gestos de passarinhos pousando no meu braço: A Branca de Neve!

Depois de tantas, ela disse: - Agora é minha vez. Olhou para mim e fez um barulhão de “pum” com a boca.

Demos muitas gargalhadas, lembrando que até as princesas soltam pum!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Contantes no Flores na Varanda


Se você perdeu nossa roda de histórias de medo, ainda há uma oportunidade de ouvir as mesmas histórias. No domingo, 24 de outubro, às 15:30, estaremos no Espaço Flores na Varanda - Floricultura e Café (www.floresnavaranda.com.br). É um lugar muito agradável que fica na Rua Camilo, 455 - Vila Romana.

Ingressos a R$10,00. Crianças até 12 anos pagam meia entrada.

Histórias de Arrepiar no mês das bruxas e do Saci



No dia 16 de outubro realizamos mais uma roda de histórias no Café no Atelier. Dessa vez contamos histórias de medo e assombração. O público estava animado e o tempo se abriu na última hora, deixando que a gente fizesse a contação ao ar livre. Confira as fotos no nosso álbum no Picasa
A nossa roda foi o último evento realizado no Café no Atelier. Infelizmente o café fechou, mas em seu lugar, nasce no mesmo endereço a Casa Estrela, que vai manter a tradição de ser um espaço cultural que vai dar espaço a atividades e cursos muito interessantes. 
Nossos agradecimentos à Mônica e ao Pedro por nos receberem com carinho no Café e nossos votos de boa sorte à Casa Estrela!
 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

16 de outubro tem Contantes no Café


Os Contantes Contentes têm o prazer de convidá-lo para mais uma Roda de Histórias no Café no Atelier. Dessa vez vamos apresentar histórias com uma pontinha de medo... Você tem coragem?

Sábado, 16 de outubro de 2010 às 20h31.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

“A linguagem é pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse ao invés de dedos, os dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que ´é eu te desejo', e libertá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação”.
Roland Barthes - Fragmentos de um discurso amoroso
"Sou como você me vê, posso ser leve como uma brisa, ou forte como uma ventania, depende de quando, e como você me vê passar."

Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"Os contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. As crianças sabem que dragões existem. Os contos de fadas dizem às crianças que dragões podem ser derrotados".

G. K. Chesterton
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domingo, 19 de setembro de 2010

Contantes no Twitter

Agora você também pode saber das novidades dos Contantes Contentes no Twitter (http://twitter.com/contantes). Vamos colocar os anúncios de encontros, avisos de novas postagens e dicas de sites e histórias. Siga-nos em @contantes.

sábado, 18 de setembro de 2010

Contantes no Café

A roda esteve muito gostosa. Houve muitas histórias de Joões, alguns mais espertos e outros mais bobos. O lugar estava gostoso e o público muito animado. Nós nos sentimos acolhidos e ficamos muito contentes.
Vejam nossas fotos em http://picasaweb.google.com/ContantesContentes/ContantesNoCafeSetembro2010#


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Meu Primeiro Beijo

Tem um tempo em que menina acha menino tonto. Até que chega um tempo em que algum menino deixa a gente meio tonta. Comigo foi assim. Eu era criança. Havia ali, na escola, na minha sala, um menino que era diferente dos outros. Quando eu ficava perto dele eu me sentia meio sem graça. E quando ele faltava na escola era a escola que ficava um pouco sem graça. Ele era mais ou menos do meu tamanho. Não era um garoto alto. Mas o espaço que ocupava em mim era grande. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. Disso eu sabia. Não porque ele dizia. Sim porque ele demonstrava. Perto de mim ele também ficava meio sem graça. Todo mundo da nossa classe, e aquele era o nosso mundo, sabia que um gostava do outro.
Ele era bom nos esportes. Fazia hipismo. Participava de campeonatos de skate. Eu ia assistir ele e seu skate. Ficava ali, meio de longe, torcendo por ele. Achava ele bonito. Gostava do seu jeito.
Eu não queria que ele me pedisse em namoro. Ele já tinha namorado algumas meninas, disso eu sabia. E eu não queria namorar. Eu era criança, e lá, na infância, eu queria mesmo era gostar, namorar não. Me lembro das conversas que eu tinha com meu pai a caminho da escola. Eu dizia que gostava daquele menino e sabia que ele gostava de mim. Só que se ele quisesse namorar eu não ia querer. E eu não queria dizer não pro menino que eu gostava. Não. De jeito nenhum.
O tempo passou. Eu mudei de cidade. Lá ficou o menino que eu gostava. E cada vez mais lá ficou. Cresci. Chegou a hora em que a infância foi ficando e meus desejos de menina foram ganhando forma.
Dei o meu primeiro beijo. Eu não gostava muito do menino que beijei. Não era assim apaixonadinha por ele. Mas eu tinha vontade de beijá-lo. E foi bom. Foi muito bom. Eu nunca contei pra ele que nele dei o meu primeiro beijo. Não sei se ele desconfiou. Lembro do lugar, da minha roupa, da roupa dele, e da sensação de prazer misturada com uma baita insegurança. Ele tinha uma boca macia, um beijo na medida do meu desejo. Nos beijamos mais algumas vezes. E este tempo também passou.
Outros momentos. Outros meninos. Outros beijos.
Um dia reencontrei uma amiga daquele tempo de infância. E ela me disse que havia encontrado aquele menino! Aquele, do começo desta história. Incrível! Estávamos morando na mesma cidade. Me deu vontade de saber dele, 20 anos depois daquele gostar. Liguei para ele. Combinamos de almoçar juntos. Nos encontramos no restaurante que ele indicou. Era um lugar bonito. Quando eu cheguei ele já estava lá. A gente se olhou e a minha alegria em revê-lo também era a dele. 20 anos depois! Ele disse que conseguia ver em mim aquela menina. Eu também podia reconhecer nele aquele menino. Conversamos muito. Sorrimos muito. Nos alegramos com a presença um do outro. Até que ele disse que eu tinha sido a primeira menina de quem ele tinha gostado. Eu disse o mesmo. Não perderia a oportunidade de dizer isto. E contei das minhas angústias lá da infância, do medo que eu sentia de alguma aproximação mais concreta, já que eu sabia que diria não. E que, para ele, eu não queria dizer não.
Almoçamos. Ele sugeriu um prato. Escolheu um vinho.
Foi um longo almoço. Entrei no carro dele que preservava um skate no bagageiro. Levou-me até a minha casa. Quando fomos nos despedir demos aquele beijinho de canto de boca. Aquele que quer beijar a boca inteira mais ainda não tem coragem. Depois, um simples selinho. Então eu disse: Acho que este teria sido nosso beijo lá de trás. Ele completou: Então vamos beijar direito! Beijamos direito. Direitinho. Enquanto o beijo acontecia eu pensava estar dando o beijo primeiro. O beijo que teria sido o primeiro. A história minha junto a dele acaba aí. Quem lê pode pensar: só isto! Eu digo: tudo isto! Na medida de um primeiro beijo, 20 anos depois de tantos outros.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Jacaré com Bruxismo

Ninguém suportava mais a presença daquele bicho. - Jacaré velho, rabugento e chato! É o que os outros animais diziam dele. Vivia discursando suas teorias de como viver bem em comunidade desde que ninguém incomode e nem converse futilidades uns com os outros.

Sempre só, não ligava para companhias. Gostava de ficar boiando na água pensando na vida, assistindo os peixinhos por baixo d’água e os passarinhos voando e com um graveto na boca, como aquelas pessoas que ficam com o palito de dente pendurado depois de palitar os dentes após as refeições.

Já não representava um perigo para os outros habitantes e visitantes da lagoa. Seus dentes eram gastos e sem ponta, conseqüência do bruxismo. Aliás, muito barulhento quando dormia, roncava forte e rangia aquele monte de dentes. Conseguia superar o coaxar dos sapos e o estrilar dos grilos.

Quando acontecia algo diferente na lagoa, se desestruturava inteiro. Ficava nervoso. Nada poderia mudar sua rotina, nada de “anormal” poderia acontecer. Os dias deveriam ser todos iguais para manter sua calma e paz de espírito.

Os outros animais, moradores da mesma lagoa, não aguentavam mais. - Tudo tem que ser como ele quer! Se não, eram obrigados a aguentar seus discursos vários dias e o que é pior, nunca esquecia. Quando lembrava o assunto depois de alguns dias, meses ou anos, lá vinha ele com o mesmo falatório sem emoção e na mesma entonação.

Quem que aguenta? Ninguém tinha mais paciência, então deixavam o jacaré com suas manias, sozinho, não o incomodavam, passavam longe dele. Deixavam que ele se sentisse o rei daquela lagoa.

Até que um dia, da noite para o dia, sem saber como e nem de onde, apareceu um jacaré mais jovem na lagoa.

- Como veio parar aqui?
- Não sei. Só apareci.
- Como assim? Não tinha outra lagoa para você mergulhar?
- Se eu pudesse escolher, não estaria nesta, com certeza.
- Hum...Já que não tem jeito, preste atenção nas regras...
- Regras? Que regras? Não tenho o costume de seguir regras. Faço o que quero, na hora que der vontade. E é melhor não se “meter à besta” comigo, meus dentes ainda são afiados.

Respondendo isto o jovem jacaré virou as costas e sumiu no meio da lagoa.

Os animais estranharam o lago naquela noite, um silêncio medonho. Ninguém estava ouvindo os roncos e nem o ranger dos dentes do velho jacaré. Ele não dormiu. Ficou nadando silenciosamente de um lado para o outro pensando em como se livrar do novo jacaré. Não queria que sua vida mudasse. Aquela lagoa era pequena demais para dois jacarés. Ah se ele ainda tivesse os dentes afiados... Resolveria esta história num instante.

Além dos dentes gastos, não tinha mais energia para lutar, só queria sua vidinha de mordiscar gravetos de volta.

O novo jacaré já foi tomando conta da lagoa. Os animais tinham medo dele. Aproveitava a situação e fazia tudo o que queria, comia tudo que via pela frente. Alguns animais se mudaram, outros viviam escondidos. Assim, a vida na lagoa mudou completamente.

Os animais já não tinham paz, o que poderiam fazer? Uma capivara gorda, amiga do velho jacaré resolveu esquecer a chatice de seu amigo e foi conversar com ele. - Podíamos fazer alguma coisa, mas o que? Você não é o rei da lagoa? Pense em algo.

– A única coisa que quero é sossego! Se virem!

É fato! Não podiam contar com aquele velho jacaré que só pensava em si mesmo.

A natureza ajudou. Ao amanhecer de uma nova estação começou a chover sem parar. O lago começou a encher. Encheu tanto que ficou a meio metro de outro lago das redondezas, muito maior e muito povoado. Tinha famílias inteiras de jacarés e outros bichos. E o mais interessante: comida que não acabava mais, para todos os gostos.

Uma fêmea de jacaré, por curiosidade chegou perto da lagoa. Como num despertar de sentidos, os dois jacarés nadaram para perto da margem. Sentiram tonturas, tremores nas pequenas pernas e ficaram com os olhos vidrados, reconhecendo na fêmea a continuidade da espécie.

A fêmea olhava aqueles dois pares de olhos alucinados e gostou do que sentiu. Estava se divertindo. Disse que um dos dois poderia se mudar para a lagoa dela. Como era uma disputa de jacarés por uma fêmea? O velho jacaré nem pensou no assunto, abriu mão de seus impulsos e disse ao outro jacaré que ele poderia ir, sem brigas. Sem olhar para trás o novo casal de jacarés foi embora para a lagoa maior, sumindo em suas águas.

Naquele instante, todos os animais da lagoa já sabiam, como se a vida voltasse ao normal, haveria muito barulho à noite.

sábado, 24 de abril de 2010

CRIA

(Texto produzido em aula de Dramaturgia, por Rubens Rewald) – Kika Antunes

- Nasceu???
- Nasceu. É um menino, lindo!!
- Meu Deus, nossa caçula hein!!
- Pois é, a nossa raspa do tacho!!
- E vai se chamar Tito mesmo?
- Vai, ah mas eu gosto. Combina com ele e com ela.
- E ela, como está?
- Ta outra. Mudou. Virou mãe, né? Isso muda mesmo!
- Será mulher? Você não mudou quando virou mãe de tantos filhos...
- Cê que pensa! Tudo mudou! E o tudo era eu.
- Nossa, eu não reparei...
- Claro que não! Quem teve a vida mudada era eu... Você continuou a sua vida, o seu corpo, quer dizer... você mudou, sim. Engordou prá burro!
- Ah, nisso você também mudou...
- Que é marido? Ta falando que eu...
- Não, não mulher! Só to falando que isso muda mesmo...todo mundo sabe. Todo mundo engorda depois que tem filho!
- Não, mas eu to falando que ela mudou diferente! Assim como eu, quando o nosso mais velho nasceu. A gente muda diferente! O “eu” muda. A gente não se reconhece mais. O corpo, a alma, o mundo de dentro, entende?
- Não! Acho que você tá exagerando! Eu a vi e não senti essa mudança toda, não. Ela ta inchada, mas isso daqui há pouco volta...
- Não volta! Não é esse inchaço a diferença! É o olhar dela. Ela não vê mais o mundo com o olhar de antes. Ela olha prô mundo agora, com um novo olhar. E ta aflita com isso. Queria falar pra ela que tudo isso é normal. Que ela aceite essa mudança, não resista. Que ela não sofra com isso e sim se divirta com o novo. É linda esta transformação!
- Pois então, mulher. Fala pra ela. De coração prá coração. Não precisa falar como você está me dizendo... É só olhar pra ela com esse olhar que você tá falando! Ela vai entender sabe por quê? Você é a mãe dela! E agora ela é a mãe do Tito. A vida é isso. O Tito vai casar e a mulher dele vai precisar desse olhar também... Ensina ela à ensinar isso prô Tito. Ela é a nossa caçula e não teve tempo de aprender isso com você!
- Ô meu velho...
- Ô minha velha...

domingo, 11 de abril de 2010

PALAVRAS desde o princípio.

Passeando no banco de trás do carro do meu pai, caminhando de mãos dadas com minha mãe nas gigantes e inesquecíveis calçadas de Maringá eu ia lendo as placas, as propagandas, os dizeres das ruas. Leitura em voz alta. Compartilhava a alegria da presença das palavras em minha vida.
Minha casa sempre teve muitas letras. Elas tinham um sabor doce. Gosto de fruta colhida no pé. Cheiro de terra molhada. Som de cachoeira. Textura de abraço. Visão de arco-íris. Saltavam dos livros, das capas dos discos de vinil, dos jornais, revistas, dos escritos de meu pai, das receitas no caderno cheio de farinha de minha mãe, dos bilhetinhos da minha mãe, que ficavam em cima da mesa, colados nas paredes, pendurados na geladeira. E quando era meu aniversário...Acordava com as palavras “Feliz Aniversário, Renata”, penduradas em algum canto da casa. A música para despertar o novo em mim era do palhaço Carequinha. Eu cantava junto com ele e minha família. Era parabéns para todo lado.
Minha brincadeira preferida: Brincar de ser professora. Aos finais de semana a escola de verdade era meu brinquedo. Meu pai criou e dirigia uma escola que eu amava. Chamava-se Colégio Platão. Ela não mais existe, mas permanece em mim. Meus colegas da rua, eu e meus irmãos inventávamos nosso brincar com giz, lousa, apagador.
Sempre amei as letras e a permissão que elas dão para o nascimento das histórias. Há alguns poucos anos tive consciência deste amor em mim. Percebi que em tudo o que desejava fazer e em tudo o que fazia elas estavam presentes. Eram (são) protagonistas! Juntando-as posso me apropriar do que sinto. Revelar desejos e angústias. Fazer declarações de amor. Compartilhar alguma dor. Criar. Rever. Ensinar. Aprender. Ser. Estar. Viver.
Às letras minha gratidão. A junção de uma na outra me fez descobrir o valor de ser inteira. As palavras me acordaram. Acordaram tantos outros e têm fôlego – incansável – para acordarem muitos mais. Um acordar para não mais adormecer. Aqui firmo um acordo. Acordo todos os dias um pouco mais.

terça-feira, 16 de março de 2010

"O menino parou pra ver o mar"

O mar foi sua segunda paixão.
Nadar não sabia. Ainda! Mas isso não diminuía o fascínio que toda aquela água lhe causava. Todo dia ia até a beira do deque e ficava encostado na mureta, vendo as ondas quebrarem nas pedras abaixo. Ficava ali por muito tempo, os olhos negros brilhando enquanto os dentes de cima mordiam o lábio inferior. Quando uma onda maior batia na madeira abaixo de seus pés, se levantava correndo e ia até a cerca. Um sorriso muito leve se esboçava em seus lábios nesses momentos e ele prendia a respiração, esticando o corpo inteiro e ficando na ponta dos pés, com os braços esticados para trás, pra equilibrar, dobrando apenas levemente a cabeça pra olhar por sobre a mureta diretamente abaixo do píer. Seus olhos se arregalavam e ficavam, se isso fosse possível, ainda maiores e mais brilhantes. Permanecia assim, congelado, até que seu corpo não aguentava mais e a tensão era quebrada por um longo suspiro. Às vezes pegava algumas pedrinhas no caminho e jogava uma a uma na água, olhando as ondas que se formavam. Em outras, sentava-se com as pernas dobradas apoiando um livro enorme com fotos de peixes que ele havia encontrado na sede da pousada. Sonhava em pular na água e mergulhar no mar à procura das cores que via nas ilustrações do livro. Voltava pro chalé andando de costas, olhando o mar até que ele se escondesse totalmente atrás das árvores, receoso de perder qualquer movimento que a água fizesse.
Quando um barco se aproximava, ficava de longe observando a manobra até que ele encostava no cais e alguém pulava para amarrá-lo. Aprendeu só de olhar a fazer vários nós, que treinava com um pedaço de corda que havia por ali. Muitas vezes, seu pai vinha até o cais e perguntava se ele queria nadar. Então eles pulavam na água e o pai o sustentava enquanto nadava perto dos pilares ou mesmo mais longe. Uma vez o pai tinha arranjado uma máscara e ele podia prender a respiração e olhar pra baixo, enquanto seu pai o apoiava nos braços esticados. Aquelas eram as melhores férias de todos os seus cinco anos.

Quando mais tarde voltasse para casa contaria pros amigos na escola as mil aventuras que tivera durante as férias: “Tinha andado de barco todos os dias, mergulhado com seu pai e pescado muitos peixes enormes. Uma vez, o capitão tinha até deixado que ele segurasse o leme na saída da baía e era sempre ele que amarrava o barco no poste quando chegavam à pousada.” Os amigos acreditariam porque ele sabia mesmo fazer vários nós. Falaria sobre os peixes que tinha visto e sobre os lugares onde nadavam. Não seriam mentiras o que ele iria contar, pois ele tinha mesmo vivido cada uma daquelas histórias mil vezes na sua cabeça. Essas histórias se juntariam a muitas outras aventuras que ele já havia vivido, na selva, no espaço e no deserto. Mas as histórias do mar seriam especiais, porque ele tinha mesmo estado lá. O mar era a coisa mais legal que ele já tinha conhecido na vida.

Mas os momentos que mais gostava eram aqueles em que sua mãe vinha ficar com ele. Nessas horas, ele contava pra ela sobre os peixes, sobre o brilho da água e o barulho das ondas. Mostrava pra elas os nós que tinha aprendido e ela ouvia todas as suas histórias com grande atenção. Depois de brincarem na água ou na mureta por um tempo, ela ia se esticar em uma cadeira de praia e ele se apoiava na sua barriga. Olhando-a nos olhos, com a cabeça apoiada nas duas mãos. O melhor era quando ela fazia cócegas na sua barriga ou quando ele deitava no colo dela e os dois olhavam pro mar enquanto ela fazia cafuné até que ele dormisse ao som das ondas. Quando ela se levantava pra almoçar ou pra caminhar até o chalé, ele ia imediatamente, correndo e pulando ao redor de suas pernas, andando de costas pra olhá-la nos olhos com um sorriso maroto e os olhos muito arregalados. Algumas vezes, ela perguntava se ele não queria continuar olhando o mar, mas ele sempre respondia que voltava mais tarde. O mar sempre estaria ali. O mar era sua segunda paixão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A árvore

Numa terra distante, a milhas e milhas de qualquer território identificado nos mapas e registros oficiais, assim como acontece todo dia em algum lugar, nasceu uma arvorezinha. A árvore era uma cerejeira e parecia muito comum. Na verdade, parecia tão comum que ninguém se deu conta de qualquer coisa especial até o dia em que ela deu seus primeiros frutos. Era uma cerejeira que dava uvas! Todos que passavam por ela ficavam intrigados, como uma cerejeira pode dar uvas? Mas experimentavam, sempre com um pouco de suspeita, e surpresos descobriam que as uvas tinham gosto de melancia!

Cientistas de todos os lugares chegaram para investigar o fenômeno e depois de muitos testes em cadinhos e centrífugas e em uma porção de outros instrumentos muito científicos descobriram algo ainda mais surpreendente: o suco das tais uvas que tinham gosto de melancia era de cor laranja e seu gosto - o gosto do suco, diferentemente do gosto da fruta - parecia uma espécie de sopa de feijão!

Quanto mais se descobria sobre a estranha planta, mais rebuliço se causava, alguns queriam cortá-la para estudos mais profundos, outros queriam arrancar-lhe pedaços para replantar e criar pomares, outros achavam que era coisa do demônio e queriam destruí-la, mas havia aqueles que se achavam os donos da estranha planta e, além de ficarem discutindo direitos de propriedade sobre ela, não deixavam os demais fazerem nada. E quanto mais se discutia, mais pessoas se juntavam à discussão, o que logicamente acabou atraindo as pessoas mais importantes da cidade, o prefeito, o delegado, o padre e os advogados de todas as partes, o que, confesso a vocês, não parecia que estava ajudando muito.

Estavam todos assim, tão investidos em debates calorosos, que não perceberam Pedrinho chegando por trás dos tumultos, e se aproximando da árvore. Achou que ela era um bom espécime para ser escalado e lá foi ele. Só que conforme ele ia subindo, aos poucos e sem perceber, a árvore ia ficando muito, muito grande... Na verdade era Pedrinho que encolhia e encolheu tanto que ficou do tamanho de uma formiga, justamente quando se deparou com um espaço oco no tronco, um buraco que lhe parecia uma caverna. Sem entender como aquela árvore tinha crescido tanto mas muito curioso, Pedrinho resolveu entrar.

Primeiro estava muito escuro, mas conforme ele foi se acostumando com a falta de luz ele começou a ouvir uma música. Resolveu seguir o som, passou por um ou dois túneis e encontrou um salão enorme. Lá longe do outro lado, de onde vinha a música, ele viu um movimento. Ao se aproximar descobriu que eram três seres muito estranhos de narizes redondos e compridos que rodavam tocando seus instrumentos e se requebrando enquanto tocavam. Um carregava um tambor que tinha um som agudo, outro tocava uma flauta de madeira que parecia um galho de árvore e o terceiro tinha guizos pendurados pelo corpo e um instrumentinho que ele tocava com as duas mãos, fazendo uma melodiazinha bem delicada. Pedrinho achou aquilo muito divertido e entrou na roda seguindo os tais seres estranhos na sua dança esquisita. Isso não durou mais que alguns segundos, porque quando o grupo notou a presença do novo componente parou imediatamente de tocar e se formou em volta do garoto, cada um dos bichos olhando para ele com um olhar de desconfiança. Começaram a cheirar e cutucá-lo, o que fez o Pedrinho sentir cócegas. Apesar da cara hostil que eles faziam, Pedrinho não ficou com medo, não sei por quê, acho que porque eles eram mesmo muito engraçados de olhar.

Mas então se ouviu um estrondo, como se fosse uma porta batendo. Todos olharam para a direção do barulho e assustados viram aproximando-se uma figura enorme (pelo menos, comparada ao tamanho que eles tinham ali), vestindo panos verdes de várias tonalidades que se sobrepunham formando um vestido muito bonito, tinha o cabelo de folhas e um rosto de mulher, soberano e muito sério. Aproximou-se e falou com uma voz profunda: porque não há mais música? Em um movimento continuo e sincronizado, os três bichinhos de nariz redondo e comprido, deram um passo para trás empurrando Pedrinho na direção da impressionante entidade. Hummm, você não deveria andar por aqui, hein garoto, disse ela coçando o queixo. Sente-se. Claro que Pedrinho fez o que ela pediu e assustado viu ela se aproximar, se agachar na sua frente e começar a estender a mão na direção de seus olhos. Teve então um impulso e disse, você sabia que estão querendo derrubar a árvore. A dona parou, fez uma cara de dúvida e perguntou, por quê? Bom, acho que é porque essa árvore é muito estranha. Ela fez hummm e deu um leve sorriso. Em seguida voltou a estender o braço na direção de Pedrinho e dessa vez terminou o movimento colocando a mão direita na frente dos olhos dele, que então não viu mais nada. Sentiu apenas um sopro no rosto e em seguida a mão ser retirada. Abriu os olhos e surpreso descobriu que estava sentado à sombra da árvore!

Ficou um pouco confuso, meio em dúvida se alguma coisa daquilo tinha mesmo acontecido. À sua frente ainda estava a algazarra das pessoas que discutiam. Mas então ouviu a voz profunda de novo, falando em seu ouvido. Olhe pra cima. E, incrível!, percebeu que a árvore começou a florescer tão rápido que em poucos instantes estava toda coberta de flores amarelas! As pessoas que estavam na discussão, aos poucos foram notando a transformação e se calando, uma a uma, paralisadas e de boca aberta. Então um vento muito forte começou a soprar, levantando chapéus e vestidos, fazendo as pessoas se desequilibrarem rolando morro a baixo para longe da árvore. Apenas Pedrinho que estava protegido pelo seu tronco não saiu do seu lugar.

Desse dia em diante, ninguém mais conseguia se aproximar da estranha planta. E as pessoas aos poucos foram deixando de tentar. Ninguém conseguia, bom, com exceção de uma pessoa, você sabem quem, não sabem? Pois é, de vez em quando o Pedrinho voltava ao pé da árvore. Por via das dúvidas, nunca mais subiu nela, mas era comum ser avistado de longe, com o ouvido encostado no tronco da árvore, balançando os ombros e remexendo os quadris, como se estivesse ouvindo música :)

Os anos se passarem e o menino se tornou um homem e o homem envelheceu, com cabelos e sobrancelhas branquinhos, branquinhos. Certa tarde ele foi até o pé da árvore, e depois de ouvir um pouco de música, deitou ali mesmo e adormeceu seu último sono com um sorriso no rosto. As flores amarelas da árvore, que tinham ornamentado sua copa durante todos esses anos caíram de uma vez, nenhuma sobre ele e todas à sua volta. As pessoas, que há muito haviam se esquecido das estranhas histórias sobre a árvore, enterraram o corpo do Pedrinho - ou, agora, vovô Pedro - ali mesmo, próximo às raízes, lugar que ele gostava tanto. Terminada a cerimônia, enquanto as pessoas começavam a partir, a árvore que esteva vazia de flores nos últimos dias, como que por mágica, voltou a florescer se enchendo novamente em apenas poucos instantes, mas - vejam que coisa! - agora as flores eram todas lilases! Ao seu pé, uma menininha de vestido rosa que ficara pra trás do cortejo das pessoas que partiam, arrancou da árvore uma fruta vermelhinha, vermelhinha e sem qualquer dúvida a mordeu com vontade. O gosto que sentiu? Gosto de cereja!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bom Dia!


Hoje acordei com uma luz diferente vinda da sala. Não era a luz habitual do raiar do dia e nem as luzes artificiais da noite. Depois de prestar atenção por uns minutos, fui levantando aos poucos, meio tonta depois de uma noite bem descansada.

Fui andando lentamente em direção à sala, imaginando o que poderia ser aquela luz com características tão diferentes, quando olhei para a janela, senti uma emoção daquelas que são raras, que faz a pele arrepiar e o coração palpitar. Instantaneamente sorri. Havia um enorme arco-íris brilhando num céu ainda nublado, resquícios da chuva que caíra durante a noite.

Foi o melhor “bom dia” que eu já recebera na vida.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Preto e branco

Essa é uma história sobre preconceito, mas é uma história bonitinha. Aconteceu com um homem que sabia se perdoar.

Era quase hora do almoço e seu filho estava brincando lá fora. O homem foi até a calçada chamá-lo pra dentro e saiu pensando em coisas do trabalho, mas ao encontrar o filho seus pensamentos pararam e se sentiu apreensivo. Ele não estava brincando sozinho, ele estava brincando com uma criança negra. Uma criança negra!! Bom, pela reação talvez vocês já tenham entendido que tanto ele quanto seu filho eram (e ainda são) brancos. Aliás, nesse momento ele estava muito branco e sentia um suor gelado e fino como uma garoa em sua testa e têmporas. Então, sem falar nada, caminhou até onde o filho se encontrava, pegou-o pela mão - já está na hora do almoço, vamos - e praticamente arrastou o menino que deixou o terreno de seu jogo em protestos veementes.

Entraram em casa, o homem bateu a porta e se agachou sério, olhando no olho do menino. Este, entendendo sem entender que o assunto era sério, com medo de ter culpa de alguma coisa, silenciou. Filho, não quero mais ver você brincando com esse menino, viu, entendeu? O menino, cuidadosamente em frente à assustadora figura do pai, respondeu que sim com a cabeça e foi pra dentro cabisbaixo. O homem, se recuperando levantou-se, e voltando a si, pediu, vai lavar a mão e vem pra mesa que vamos almoçar.

Ao lado da janela estava a avó, que pela fresta das cortinas olhava a rua pra entender a agitação. Ah, mas então era isso? Um menino preto. Hummm, lembrou de como o marido, pai do homem, em diversas situações fizera a mesma coisa e sentiu uma pena de todos que molhou de leve seus olhos, pois viu ali apenas três meninos. O que podia fazer? Há tempos, aliás há muito muito tempo, o filho não lhe dava ouvidos. Resignou-se.

Assim, em um silêncio triste o dia passou, mas ela não foi dormir em paz e rolou um pouco na cama antes de pegar no sono. No meio da noite acordou com a lembrança viva de um sonho. Uma mulher negra, linda em um vestido verde e com cabelos soltos, longos e crespos, tirava de um esconderijo que havia no pé de uma escrivaninha uma antiga chave. Com essa chave abria uma caixa marcada com alguns desenhos bem característicos e então o sonho acabava. Mas aquela caixa... ela conhecia aquela caixa, acendeu a luz, se esforçando para suportar a repente claridade abriu o armário e depois de jogar algumas coisas pra cima, lá estava ela, a pequena caixa velha. Hummm, fechada. Rolou na cama até o outro lado do quarto onde estava a escrivaninha e tateando o pé, o mesmo que lhe aparecera em sonho, percebeu logo uma saliência diferente, a que nunca se daria importância se não se soubesse o que procurar. Apertou, puxou... abriu. E a chave apareceu junto com um sobressalto no coração que batia forte de medo, excitação e curiosidade. Abriu a caixa com um cuidado excessivo e encontrou dezenas de cartas e uma foto. Leu todas, uma a uma e no fim, sentindo-se mais leve, apagou as luzes e dormiu até o dia seguinte.

No dia seguinte, após ter feito o que sempre fazia no banheiro ao acordar, o homem foi até a mesa, posta com o café da manhã. Mas na sua frente, estranho, estava a caixa, uma caixa estranaha. O que é isso mãe? Ah, eu estava mexendo em umas coisas ontem a noite e encontrei, era do seu avô veja que interessante. Curioso o homem abriu e encontrou cartas. Não tinha que trabalhar, era feriado, não tinha pressa, começou a ler. A primeira era uma resposta, de uma mulher, que se dizia encabulada, mas se mostrava feliz, embora achasse que não deveria receber elogios assim. A segunda carta era da mesma mulher, tinha um tom mais divertido, mas ainda recriminava o que quer que houvera recebido. As cartas se seguiam contando uma história de um flerte que foi se transformando em desejo, em amor, em sexo, em cumplicidade mas continham um grande medo de separação. Aparentemente a mulher era uma espécie de serviçal e não havia como a família aceitá-la. Havia apenas mais uma carta que aparentemente teria sido recebida um par de anos depois, que falava de amor, saudades e falava de um filho que ficaria melhor com o pai rico.

O homem parou confuso, incomodado e seu sangue esfriou até ficar gelado. Esse filho... será possível?! seria seu pai!?! Com os olhos arregalados, lentamente, foi até à caixa mais uma vez e pegou a última coisa que ela continha, a foto. Era a foto em preto e branco de uma mulher, bonita, alta, de corpo forte, delicado e sinuoso, de um olhar doce, de cabelos crespos e de pele negra. Já entendendo quem devia ser a mulher, mas muito confuso, virou a carta procurando sinais e lá havia uma data e um nome. O mesmo nome assinado nas cartas. Um turbilhão de pensamentos e emoções que por vezes paravam em conclusões e lembranças, essa é minha avó? mas porque meu pai era assim? essa é a minha avó! então eu tenho sangue negro?! e olhando do lado de dentro lembrou de coisas de sua vida sentindo vergonha e culpa e dor, mas não, eu não sou negro, como posso ser? Terminou de comer alguma coisa e saiu pra rua, mãe, vou caminhar, sério, com o coração inquieto.

Algumas horas depois voltou, andar faz bem, estava melhor, mas ainda desequilibrado, apesar de ter a mente mais calma. Sentou na mesa, absorto no seu abalado mundo interior, quase não viu a mãe sentar ao seu lado e carinhosamente colocar suas mãos sobre a dele. Ficaram assim por alguns minutos, então alguém bateu na porta, a mãe fez menção de levantar, mas ele tocou em seu braço e foi, curioso, atender. Abriu a porta lentamente e surpreso encontrou do outro lado uma mulher negra, de vestido verde, cabelos crepos longos e soltos, e - estranho observar - peculiarmente bonita. Mas claramente nervosa, começou a falar, vc é o pai do menino? ah, isso não está certo, deixe-me dizer uma coisa, e prosseguiu contando que encontrara seu filho brincando com o dele escondidos porque o pai - no caso ele - tinha-o proibido de brincar juntos. Como assim? Queria uma explicação. O homem reagindo devagar, olhou pra baixo com um olhar no infinito e de leve deixou nascer um sorriso no canto da boca, junto com uma frase silenciosa, meu filho... Como vc chama? Ela deu o nome. Entendo sua reação, mas, me desculpa, eu não estou em condições de brigar, podemos não brigar? A mulher se sentiu desarmar, mas ainda resistia na raiva, ainda desconfiada, de braços cruzados e testa franzida. Ia continuar mas ele então disse, meio sem querer, mas como você é bonita... Disse com o desembaraço de uma criança que se surpreende e ela se perdeu de novo por uns intantes. Desculpe... por favor... eu nem sei mais nada... me desculpe... talvez fosse melhor você entrar, então de dentro veio uma voz, entre, venha, estou esquentando um cafézinho! Confusa e reticente, mas se sentindo sem muita escolha a mulher foi, atravessando, sem que eles soubessem, as fronteiras de um mundo que aos poucos se abria.