sábado, 5 de dezembro de 2009

Auto Retrato

Conheci esse poema de Manoel de Barros outro dia e logo me identifiquei com ele e achei que devia partilhá-lo. Contar histórias é inventar verdades que ainda nem sabiam que existiam.

Auto Retrato

Manoel de Barros

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não via a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!

(in Ensaios Fotográficos)

2 comentários:

  1. Adoro Manoel de Barros. A poesia dele é um presente.

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  2. por favor alguém me explique alicate cremoso? email:maria_jaquegus@hotmail.com

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