terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Prata ou Ouro?

Estava lendo um livro em um bosque onde se caminha. Para aqueles que gostam de percorrer caminhos também sentados, há bancos de madeira. Eu caminhava com meus pensamentos e sentimentos. Livro em punho. Olhos atentos.
Um senhora chegou com sua bicicleta. Era vermelha. Caloi. Antiga. A pintura estava “machucada”, provando que aquela bicicleta e sua dona – ou seus donos – já tinham se divertido muito.
A senhora pediu para eu cuidar da bicicleta enquanto ela corria com seus próprios pés. Ela disse que tinha acabado de voltar de um passeio ciclístico.
Lembrei dos meus passeios ciclísticos da infância. Enfeitávamos as bicicletas. Um bando de crianças. Não me lembro direito se tinham prêmios para as mais bonitas. Talvez porque o prêmio, para mim, era estar lá.
Lembrei de quando meu pai perguntou para mim e para a minha irmã: “Prata ou ouro”? Eu respondi prata. Minha irmã, ouro. Achamos que mais tarde nosso pai nos presentearia com um anel. O presente-surpresa tinha sim dois anéis. Anéis gigantes. Eram as rodas. As bicicletas, a minha prata, da minha irmã ouro, tinham também duas rodinhas. Eram as miniaturas dos anéis gigantes. Rodinhas. Os apoios ainda necessários quando nos sentimos inseguros. Usei muito aquelas rodinhas. Pude exercitar a minha insegurança.
A bicicleta tinha também uma charmosa cestinha na frente, onde andavam comigo minhas bonecas, minhas idéias, minha alegria de ser criança. Na garupa eu levava meus irmãos, minhas amigas. Peso gostoso de carregar.
Depois de muitas idas e vindas com minha Caloi Cecizinha e suas rodinhas...chegou o dia do meu pai perguntar: “Que acha de tirarmos as rodinhas hoje”? Ai, Ai, Ai. Tive medo. Ele falou que seguraria a bicicleta até eu conseguir me equilibrar. Meu pai não mentia. Confiei. Peguei a minha bicicleta, agora sem rodinhas, só com os anéis gigantes. Comecei a pedalar. Será que conseguiria andar só? Meu pai cumpriu o prometido. O prometido não. Cumpriu aquilo que havia dito. Quem cumpre o que fala não precisa de promessas. Chegou a hora dele soltar, a bicicleta e eu junto. Tínhamos conseguido o equilíbrio. Pedalava, pedalava, pedalava. Conquistei a alegria de ter conseguido, agora sozinha, pedalar pelos caminhos que desejava. Tiveram vezes em que caí, ralei o joelho, o cotovelo. Caia. No outro dia estava eu lá, com minha amiga bicicleta, sem medo de chegar em casa à tarde com mais alguns arranhões. Que graça tem a infância sem algumas raladas no joelho?
A prata e o ouro ofereço ao meu pai. Me lembro do seu sorriso vibrando com a minha conquista. Quanto ele me soltou, a conquista era minha. A conquista também era dele.
A senhora da bicicleta vermelha voltou. Me agradeceu por ter cuidado dela. Mal sabe que quem tem que agradecer sou eu. Ah! Que vontade de andar de bicicleta. Sem rodinhas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Auto Retrato

Conheci esse poema de Manoel de Barros outro dia e logo me identifiquei com ele e achei que devia partilhá-lo. Contar histórias é inventar verdades que ainda nem sabiam que existiam.

Auto Retrato

Manoel de Barros

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não via a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!

(in Ensaios Fotográficos)