sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O de sempre, por favor!

Eu devia estar no terceiro ano. Eu e meus colegas sempre voltávamos da escola caminhando. A escola não era muito longe da minha casa, mas naquela época o caminho parecia muito longo. Éramos sempre três: o Renato, o Hélio e eu. Eles eram meus melhores amigos. Falávamos de todas as coisas importantes quando se tem nove anos: coisas nojentas, insetos, super-heróis, futebol e até da escola! Falávamos mal das meninas, mas éramos apaixonados pela professora.

Fazíamos sempre do mesmo jeito: saíamos pelo portão da escola e íamos pela rua de cima, nunca a de baixo! Brincávamos com uma cadela que ficava numa garagem. Ela não devia ser uma vigia muito boa, pois virava de barriga pra cima e deixava a gente fazer carinho. Talvez ela soubesse que nós não éramos perigosos, sei lá.

Quando chegou o calor, o sol esquentava muito e o caminho parecia a travessia do deserto. No meio do caminho havia uma vendinha, dessas que vendem um pouco de tudo. O atendente era um moço magro, muito alto (naquela época todo mundo era alto). Ele usava uma barba rala e cabelos compridos meio despenteados. Estava sempre de jeans e camiseta. Minha mãe dizia que ele era hippie, mas eu não sabia muito bem o que era isso. Todos os dias nós parávamos no bar e pedíamos um copo de água.

O Sérgio nos servia e, enquanto tomávamos a água, ele conversava conosco. Às vezes havia mais gente no bar e ele não podia conversar muito, mas nunca deixou de ser atencioso conosco. O Sérgio era nosso amigo adulto e nós o achávamos muito legal. Depois de sair do bar sem sede o resto do caminho era sempre mais fácil e conseguíamos fazer coisas interessantes, como chutar uma latinha no chão ou fazer uma corrida até a capelinha da esquina.

Depois de um tempo nós paramos de pedir água. Entrávamos no bar e pedíamos “o de sempre, por favor!” e achávamos isso muito divertido. Nós éramos os clientes e o Sérgio era o barman que nos servia a bebida habitual. E mesmo que não tivéssemos um centavo no bolso e só tomássemos água, nós nos sentíamos especiais.

Um dia, como sempre, entramos no bar fazendo o nosso pedido habitual.
– O de sempre, por favor!
– O de sempre? – ele confirmou.
– Sim, dissemos animados.
Ele foi ao balcão, pegou uma garrafa de guaraná e três copos. Nós não entendemos o que estava acontecendo, tentamos pedir pra não abrir a garrafa
– O de sempre é só água.
– Nós não temos dinheiro.
– É por conta da casa. – ele nos tranqüilizou. Ficamos um pouco confusos, mas qual criança recusaria um copo de guaraná? Tomamos contentes, agradecemos e fomos embora, comentando o fato. Ficamos curiosos, imaginando por que ele teria feito aquilo, se era uma data especial, se era porque nós íamos lá todos os dias, se era por pena de nunca termos dinheiro.
– Não sei não, minha mãe me disse pra nunca aceitar nada de estranhos, eu disse com receio
–Mas ele não é estranho – o Renato contestou – minha mãe compra pão aqui todo dia. Isso resolvia tudo. Deixamos pra lá e fizemos a linha de largada pra nossa corrida.

Não passamos lá por muito tempo depois disso. Acho que choveu ou talvez só tenha se passado mesmo um fim de semana. Na próxima vez que fez sol e ficamos com sede, combinamos antes de entrar pedir só um copo d’água, pra não haver dúvida. Mas quando entramos o Sérgio não estava no balcão. Só havia um homem mais velho, que deu a água de má-vontade. Bebemos e saímos logo, pois o homem nos olhou com cara de poucos amigos. Saímos desconfiados. Onde estava nosso amigo? Será que ele foi mandado embora por causa do guaraná que ele deu pra nós? Será que é por isso que o dono do bar olhou pra gente de cara feia?

Paramos de entrar naquele bar a caminho de casa. Um pouco, porque o tempo esfriou, mas principalmente porque nos sentíamos mal com aquela história. Já não podíamos brincar de pedir o mesmo de sempre. Achávamos que de alguma forma éramos culpados pelo sumiço do nosso amigo. E tínhamos medo da cara feia do dono.

Nunca mais falamos nisso. Todos os dias nós passávamos por ali sem nunca mais entrar e nem fazer nenhum comentário, mas muitas vezes eu vi o Renato ou o Hélio olhando pra dentro, talvez esperando, como eu, ver o nosso amigo de volta. Mas eu nunca mais soube nada dele. Quando cresci um pouco, percebi que nós não tínhamos nenhuma relação com o seu sumiço. Hoje eu gosto de acreditar que, sabendo que aquele seria seu último dia naquele trabalho, ele quis dar um presente de despedida para os seus pequenos clientes habituais. E mesmo que ele não tenha bebido conosco, gosto de imaginar que estávamos brindando a algum fato bom da sua vida.

2 comentários:

  1. Essa é a minha história que a Rosângela contou. Espero que gostem da minha versão...
    Também espero ver suas histórias aqui.

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  2. Reli hoje com a emoção da segunda vez. Me senti presenteada pelas palavras e pude ver você (o menino das fotos de ontem) lá!

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