domingo, 8 de novembro de 2009

Dedo Roxo


Minha filha, a Camila, era um bebê muito sociável, vivia se jogando no colo das pessoas, até de estranhos, tudo era uma festa. Eu até tinha medo de numa distração, alguém a levar.

Morávamos a umas quatro quadras da escola e íamos caminhando, geralmente com ela no colo. A menininha, sempre simpática e sorridente, conhecia todos os cachorros da rua, todos os comerciantes, todos os velhinhos que ficavam na varanda e todas as casas que tinham flores no jardim.

Numa dessas caminhadas, quando viramos uma rua, na outra esquina vinha vindo um senhor carregando um grande pacote de pães. Andamos a quadra toda, quando o homem estava passando por nós, a Camila estendeu uma mãozinha e disse: - Pão! Eu não sabia onde me esconder de tanta vergonha. O homem deu um sorriso, olhou para mim e disse: - É criança! Abriu o pacote e ofereceu para a Camila que enfiou sua mãozinha e retirou um pãozinho inteiro com um sorriso enorme de satisfação no rosto. Ficou andando com aquele pãozinho nas duas mãozinhas como se fosse um troféu.

Numa tarde de sexta-feira, durante o mês de maio, quando a Camila tinha uns 10 meses, voltávamos da escola e no caminho entramos numa loja de roupas onde tínhamos amizade com as balconistas. Sentei-a no balcão da loja e fiquei conversando com uma das vendedoras quando a Camila começou a chorar, então achamos que ela tinha prendido a mão num vão do balcão que não era muito firme. Olhei suas mãos e seu polegar estava com uma mancha roxa, horrível, muito escura. Pensei como o dedo poderia ter ficado tão roxo em tão pouco tempo.

Quando ela parou de chorar, fomos para casa e como de costume, eu tirava as roupas sujas de sua mochila e neste dia, encontrei um marcador de livro com mensagem de felicitações, no próximo domingo seria meu primeiro dia das mães.

Li o cartão e vi a digital do polegar da Camila, marcada com tinta, como se fosse a sua assinatura. Neste momento compreendi que “o roxo” que ela tinha no polegar, era tinta e não um hematoma.

Vinte e três anos depois, escrevendo estas recordações, perguntei para minha filha se por um acaso ela se lembrava o motivo do choro. Sua resposta:

- Mãe! Eu não tinha nem um ano de idade!

Um comentário:

  1. Ofereço este conto para a Camila, presente de Natal. Beijos a todos.

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