segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Recado de Uma Fada

Sou a fada dos cabelos coloridos

Vôo pelos ares

E, quando quero,

Caminho com os pés firmes no chão

Amo minhas asas

Amo meus pés

Cada um me ajuda a percorrer diferentes caminhos

Meu coração bate forte

Toda vez em que uso minha varinha mágica

Pensam que eu faço milagres

Um dia...

Todos encontrarão a verdade

Cada um é seu próprio milagre

Aí, neste dia, talvez, eu voe ainda mais alto...

domingo, 8 de novembro de 2009

Dedo Roxo


Minha filha, a Camila, era um bebê muito sociável, vivia se jogando no colo das pessoas, até de estranhos, tudo era uma festa. Eu até tinha medo de numa distração, alguém a levar.

Morávamos a umas quatro quadras da escola e íamos caminhando, geralmente com ela no colo. A menininha, sempre simpática e sorridente, conhecia todos os cachorros da rua, todos os comerciantes, todos os velhinhos que ficavam na varanda e todas as casas que tinham flores no jardim.

Numa dessas caminhadas, quando viramos uma rua, na outra esquina vinha vindo um senhor carregando um grande pacote de pães. Andamos a quadra toda, quando o homem estava passando por nós, a Camila estendeu uma mãozinha e disse: - Pão! Eu não sabia onde me esconder de tanta vergonha. O homem deu um sorriso, olhou para mim e disse: - É criança! Abriu o pacote e ofereceu para a Camila que enfiou sua mãozinha e retirou um pãozinho inteiro com um sorriso enorme de satisfação no rosto. Ficou andando com aquele pãozinho nas duas mãozinhas como se fosse um troféu.

Numa tarde de sexta-feira, durante o mês de maio, quando a Camila tinha uns 10 meses, voltávamos da escola e no caminho entramos numa loja de roupas onde tínhamos amizade com as balconistas. Sentei-a no balcão da loja e fiquei conversando com uma das vendedoras quando a Camila começou a chorar, então achamos que ela tinha prendido a mão num vão do balcão que não era muito firme. Olhei suas mãos e seu polegar estava com uma mancha roxa, horrível, muito escura. Pensei como o dedo poderia ter ficado tão roxo em tão pouco tempo.

Quando ela parou de chorar, fomos para casa e como de costume, eu tirava as roupas sujas de sua mochila e neste dia, encontrei um marcador de livro com mensagem de felicitações, no próximo domingo seria meu primeiro dia das mães.

Li o cartão e vi a digital do polegar da Camila, marcada com tinta, como se fosse a sua assinatura. Neste momento compreendi que “o roxo” que ela tinha no polegar, era tinta e não um hematoma.

Vinte e três anos depois, escrevendo estas recordações, perguntei para minha filha se por um acaso ela se lembrava o motivo do choro. Sua resposta:

- Mãe! Eu não tinha nem um ano de idade!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Viva o nosso "Campo de Pouso"!

Houve um tempo em que descobri que gosto de namorar as letras, as palavras e as frases. Não sou casada com elas. Mas me permito namorá-las! Casamento é compromisso, é intimidade do dia-a-dia. Ainda estou no namoro. Não é rotina a minha escrita. Não é também um compromisso. É um desejo, como a paixão! Quem sabe eu chego a casar com as letras. Quem sabe mantenha o desejo e a intimidade unidos. Sonho de qualquer casamento. Grandes escritores me parecem já ter comemorado com as letras bodas de diamante! Quem escreve, conta escrevendo. Bartolomeu Campos de Queirós, um escritor (este "casou bem"), diz em seu livro Para Ler em Silêncio: "Escrever é permitir as asas, mas oferecer ainda um campo de pouso. Escrever é dar amparo às orações, poder contemplá-las despertas sobre linhas do papel."
Contantes Contentes...nosso campo de pouso não é bem um papel. É uma tela de computador. Este é nosso campo de pouso. Que possamos voar com as histórias e pousar algumas delas por aqui, neste contente espaço. Assim outros poderão voar com elas também e contemplar a beleza das palavras!
P.S.: Contantes Contentes, para mim, é saboroso conviver com vocês e suas histórias! Muito obrigada por contemplarem as palavras junto comigo! Caique, muito obrigada por nos ter ofertado com criatividade e carinho um lindo campo de pouso!

O de sempre, por favor!

Eu devia estar no terceiro ano. Eu e meus colegas sempre voltávamos da escola caminhando. A escola não era muito longe da minha casa, mas naquela época o caminho parecia muito longo. Éramos sempre três: o Renato, o Hélio e eu. Eles eram meus melhores amigos. Falávamos de todas as coisas importantes quando se tem nove anos: coisas nojentas, insetos, super-heróis, futebol e até da escola! Falávamos mal das meninas, mas éramos apaixonados pela professora.

Fazíamos sempre do mesmo jeito: saíamos pelo portão da escola e íamos pela rua de cima, nunca a de baixo! Brincávamos com uma cadela que ficava numa garagem. Ela não devia ser uma vigia muito boa, pois virava de barriga pra cima e deixava a gente fazer carinho. Talvez ela soubesse que nós não éramos perigosos, sei lá.

Quando chegou o calor, o sol esquentava muito e o caminho parecia a travessia do deserto. No meio do caminho havia uma vendinha, dessas que vendem um pouco de tudo. O atendente era um moço magro, muito alto (naquela época todo mundo era alto). Ele usava uma barba rala e cabelos compridos meio despenteados. Estava sempre de jeans e camiseta. Minha mãe dizia que ele era hippie, mas eu não sabia muito bem o que era isso. Todos os dias nós parávamos no bar e pedíamos um copo de água.

O Sérgio nos servia e, enquanto tomávamos a água, ele conversava conosco. Às vezes havia mais gente no bar e ele não podia conversar muito, mas nunca deixou de ser atencioso conosco. O Sérgio era nosso amigo adulto e nós o achávamos muito legal. Depois de sair do bar sem sede o resto do caminho era sempre mais fácil e conseguíamos fazer coisas interessantes, como chutar uma latinha no chão ou fazer uma corrida até a capelinha da esquina.

Depois de um tempo nós paramos de pedir água. Entrávamos no bar e pedíamos “o de sempre, por favor!” e achávamos isso muito divertido. Nós éramos os clientes e o Sérgio era o barman que nos servia a bebida habitual. E mesmo que não tivéssemos um centavo no bolso e só tomássemos água, nós nos sentíamos especiais.

Um dia, como sempre, entramos no bar fazendo o nosso pedido habitual.
– O de sempre, por favor!
– O de sempre? – ele confirmou.
– Sim, dissemos animados.
Ele foi ao balcão, pegou uma garrafa de guaraná e três copos. Nós não entendemos o que estava acontecendo, tentamos pedir pra não abrir a garrafa
– O de sempre é só água.
– Nós não temos dinheiro.
– É por conta da casa. – ele nos tranqüilizou. Ficamos um pouco confusos, mas qual criança recusaria um copo de guaraná? Tomamos contentes, agradecemos e fomos embora, comentando o fato. Ficamos curiosos, imaginando por que ele teria feito aquilo, se era uma data especial, se era porque nós íamos lá todos os dias, se era por pena de nunca termos dinheiro.
– Não sei não, minha mãe me disse pra nunca aceitar nada de estranhos, eu disse com receio
–Mas ele não é estranho – o Renato contestou – minha mãe compra pão aqui todo dia. Isso resolvia tudo. Deixamos pra lá e fizemos a linha de largada pra nossa corrida.

Não passamos lá por muito tempo depois disso. Acho que choveu ou talvez só tenha se passado mesmo um fim de semana. Na próxima vez que fez sol e ficamos com sede, combinamos antes de entrar pedir só um copo d’água, pra não haver dúvida. Mas quando entramos o Sérgio não estava no balcão. Só havia um homem mais velho, que deu a água de má-vontade. Bebemos e saímos logo, pois o homem nos olhou com cara de poucos amigos. Saímos desconfiados. Onde estava nosso amigo? Será que ele foi mandado embora por causa do guaraná que ele deu pra nós? Será que é por isso que o dono do bar olhou pra gente de cara feia?

Paramos de entrar naquele bar a caminho de casa. Um pouco, porque o tempo esfriou, mas principalmente porque nos sentíamos mal com aquela história. Já não podíamos brincar de pedir o mesmo de sempre. Achávamos que de alguma forma éramos culpados pelo sumiço do nosso amigo. E tínhamos medo da cara feia do dono.

Nunca mais falamos nisso. Todos os dias nós passávamos por ali sem nunca mais entrar e nem fazer nenhum comentário, mas muitas vezes eu vi o Renato ou o Hélio olhando pra dentro, talvez esperando, como eu, ver o nosso amigo de volta. Mas eu nunca mais soube nada dele. Quando cresci um pouco, percebi que nós não tínhamos nenhuma relação com o seu sumiço. Hoje eu gosto de acreditar que, sabendo que aquele seria seu último dia naquele trabalho, ele quis dar um presente de despedida para os seus pequenos clientes habituais. E mesmo que ele não tenha bebido conosco, gosto de imaginar que estávamos brindando a algum fato bom da sua vida.

domingo, 1 de novembro de 2009

Encontro no Dia do Livro

No dia 29 de outubro, fizemos nosso primeiro encontro após o final do curso. Não sei se o André fez de propósito, mas esse é o Dia do Livro. E como a Renata bem observou, essa coincidência foi muito feliz. Não poderíamos ter escolhido uma data mais apropriada para celebrar nosso amor pelas histórias. Falamos de contação, é claro. Contamos histórias também. De quem estava lá e de quem estava só em lembrança.

Planejamos esse blog, nosso espaço virtual. Discutimos a questão do nosso nome e acabamos aprovando a sugestão do Carlos: "Contantes Contentes", Um nome bem lúdico, que fala às crianças e expressa o espírito que desejamos manter sempre.

Mais do que tudo isso, nosso encontro foi um papo muito gostoso e animado, com comida boa e chope gelado. Nos vemos de novo no dia 7. Esperamos que mais gente se junte à roda.

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Era uma vez...



Era uma vez um grupo de pessoas que se reuniram pra contar histórias. Eles vieram de muitos lugares e tinham muitas histórias diferentes. O lugar onde se reuniram eram um espaço mágico da imaginação. Um espaço de celebração da vida onde muitas coisas boas já foram criadas. Nesse lugar, eles foram conduzidos por uma fada que os ensinou a olhar com olhos de ver e a perceber que toda história é boa, mas só vale ser contada por quem encontra nela uma verdade e por quem consegue se mostrar a todos por trás dela.
As histórias se entrelaçaram e essas pessoas perceberam que suas vidas agora eram um pouco diferentes. E sentiram vontade de continuar contando e cantando e encantando.

Oi abre a roda, tindô-le-lê...